RESENHA POLÍTICA
ROBSON OLIVEIRA
DEBATE
Quem assistiu ao debate da Band com os candidatos ao Governo de Rondônia, na hora do almoço de terça-feira, na capital, provavelmente o fez por obrigação profissional, militância ou pertencimento a alguma dessas bolhas digitais onde cada candidato é sempre o gênio que o eleitor ainda não descobriu. Para o restante dos mortais, havia coisas mais interessantes a fazer.
FICÇÃO
O encontro reuniu seis candidatos e revelou uma campanha ainda sem musculatura, candidatos pouco preparados para enfrentar perguntas fora do script e uma coleção de respostas que, em muitos momentos, pareciam ter sido pescadas de algum arquivo de promessas eleitorais produzido às pressas.
Os programas de governo, aliás, continuam sendo uma das maiores ficções da democracia brasileira. São apresentados à Justiça Eleitoral com a solenidade de um projeto de Estado, mas frequentemente acabam servindo como literatura de campanha: prometem muito, explicam pouco e, depois da eleição, dormem tranquilamente em alguma gaveta burocrática.
DISPERSOS
No debate da Band, essa distância entre o papel e a realidade ficou escancarada.
Perguntava-se uma coisa, respondia-se outra. Alguns pareciam ter levado ao estúdio um repertório decorado, mas não necessariamente compreendido. Outros simplesmente desviavam da pergunta como quem avista um buraco na estrada. Houve até candidato que, aparentemente distraído, pediu que a pergunta fosse repetida. E repetiram.
DISTRAÍDO
É um detalhe quase cômico, mas politicamente revelador. O sujeito vai a um debate para apresentar-se como preparado para governar Rondônia e não consegue prestar atenção à pergunta que lhe fazem. É a versão eleitoral do motorista que entra no carro sem saber para onde vai.
PROMESSAS
Também houve respostas mais objetivas. Hildon Chaves defendeu uma solução para a regularização fundiária baseada na transferência de terras da União ao Estado. Samuel Costa colocou na mesa a ideia de tributar o agronegócio da soja, uma proposta deliberadamente provocativa. Adailton Fúria, ao ser questionado sobre a continuidade do governo Marcos Rocha, preferiu a matemática política: tem o apoio do governador, mas garante que não fará continuidade administrativa. Além de prometer acabar com o pedágio. Algumas dessas propostas inexequíveis. Puro populismo.
A CONTA
Marcos Rogério também apresentou uma proposta de difícil execução: ampliar fortemente a pavimentação das rodovias estaduais, citando as ROs 101, 458 e 420 e a retomada da Rodovia do Boi. Num Estado com milhares de quilômetros de estradas estaduais e apenas uma parcela pavimentada, a promessa é grande. E justamente por isso precisa vir acompanhada da conta. Quanto custa? De onde sai o dinheiro? Qual o cronograma? Sem essas respostas, até Hércules teria dificuldade para realizar a obra. Expedito Neto laou mais do governo de Lula do que qual proposta possui para governar Rondônia e, Samuel, não falou nada com nada, exceto cutucar oponentes e expor o golpe que foi vítima do petista.
GASTOS
Foram momentos de raros sobre propostas, embora nenhum deles tenha produzido aquela sensação rara de que alguém entrou no estúdio com uma ideia realmente capaz de mudar o rumo do Estado. E é aí que está o problema. Rondônia não precisa de mais candidatos capazes de recitar saúde, educação, segurança, infraestrutura e geração de empregos. Isso qualquer candidato consegue fazer depois de duas horas de treinamento com o marqueteiro. O que falta é explicar como pagar, executar, fiscalizar e, sobretudo, o que será diferente do que já foi tentado.
FORMATO
A política rondoniense continua produzindo programas de governo como quem produz panfleto de supermercado: muita oferta, pouca garantia de entrega. Nem mesmo quem possui mais de um neurônio conseguiu transformar o debate numa demonstração inequívoca de carência de preparo. Houve ataques, acusações e alguns momentos de confronto político. Mas confronto não é necessariamente debate. Às vezes é apenas barulho com microfone. No fim, não houve vencedor evidente. E esta talvez seja a constatação mais importante da tarde. A organização do evento pecou tecnicamente e pelo formato que produziu um debate horroroso.
ENGANADOS
Os militantes, naturalmente, encontraram motivos para comemorar. Cada bolha saiu do debate convencida de que seu candidato havia sido brilhante. É uma tradição eleitoral: quando o candidato próprio vai mal, a militância chama de estratégia; quando o adversário vai mal, chama de desastre. A realidade costuma ser menos generosa. O eleitor comum, porém, não tem obrigação de participar desse campeonato de autoengano.
PERDIDOS
Se o debate da Band fosse uma espécie de teste de direção para o futuro governo, Rondônia teria terminado a prova com vários candidatos procurando onde fica o freio, alguns perguntando o caminho e nenhum demonstrando conhecer exatamente o destino.
A DERIVA
O Estado está diante de problemas grandes demais para ser conduzido por improviso, frases de efeito e promessas protocoladas na Justiça Eleitoral. Faltou proposta nova. Faltou domínio. Faltou capacidade de síntese. Faltou, sobretudo, a demonstração de que havia ali alguém preparado para pegar o leme. O mar, pelo visto, continua revolto. E o eleitor ainda procura o timoneiro.
AVALIAÇÃO
Marcos Rogério tem uma vantagem que poucos candidatos conseguem esconder: experiência nos embates. Acostumado ao plenário do Senado e aos embates políticos, sabe falar, argumentar e, sobretudo, confrontar. Nos debates, não costuma fugir da raia. Desenvolve os temas, responde aos adversários e tem verbo suficiente para ocupar o palco. O problema é outro: falta-lhe empatia.
RANÇO
É um candidato seco, pouco luminoso e excessivamente autossuficiente. Parece estar sempre tentando vencer a discussão, quando uma campanha eleitoral exige algo além de ter razão: é preciso convencer quem está do outro lado da televisão. E ainda há nele alguns ranços da campanha passada. A postura de confronto continua presente, mas nem sempre produz o efeito desejado. Às vezes, transforma firmeza em dureza e segurança em distância.
IDENTIDADE
O candidato do PL sabe fazer discurso. Sabe enfrentar adversário. Sabe construir argumento. O que ainda não demonstrou, com a mesma eficiência, é saber transformar tudo isso em identificação. E eleição não se ganha apenas no verbo. Ganha-se quando o eleitor olha para o candidato e pensa: “esse sujeito entende o que eu sinto e fala comigo.”
DISPERSO
Há coisas que o debate eleitoral explica. Outras, nem tanto. O desempenho de Hildon Chaves chamou atenção pela dispersão, pela dificuldade de concluir raciocínios e pela incapacidade de responder diretamente a perguntas relativamente simples. Em vez da resposta, divagações. Em vez do confronto, generalidades. Em vez de administrar o tempo, perde-se dentro dele. Algo supostamente neurológico, ao que parece, lhe acomete. Uma vez que foi num debate histórico de TV que o catapultou a prefeitura da capital.
AUSENTE
Não é apenas uma impressão isolada. Em Cacoal, durante a agenda realizada na OAB, Hildon também apresentou um comportamento distante do debate o que surpreendeu os presentes. O evento, aliás, tinha justamente o objetivo de oferecer aos pré-candidatos espaço para apresentar propostas e visão de futuro para Rondônia. O que se viu foi um candidato ausente, pensativo e com dificuldade de expor algum raciocínio completo. Continua incomodado com o tempo de TV o que significa falta de treinamento.
DESAPRENDEU
O curioso é que estamos falando do mesmo Hildon que, em sua primeira campanha para prefeito de Porto Velho, mostrou outra capacidade no palco político. Tinha frases de efeito, raciocínio rápido e alguma habilidade para desmontar o adversário. Chegou ao governo municipal usando comunicação e retórica como ferramentas eleitorais. Agora, parece ter desaprendido o manual que um dia escreveu.
PERFOMANCE
Não é razoável atribuir publicamente esse comportamento a qualquer diagnóstico médico - e seria irresponsável transformar desempenho político em diagnóstico clínico. O que se pode constatar é algo mais simples e objetivo: Hildon não está conseguindo reproduzir, nos debates, a performance política que marcou sua trajetória eleitoral.
IRRECONHECÍVEL
Hildon já demonstrou saber ganhar eleição e administrar uma máquina pública. Também construiu uma imagem de gestor e chegou a apresentar, embora disperso, em Cacoal, uma narrativa de “gestão de qualidade” e combate à corrupção como marcas de seus oito anos na capital. O problema é que, no debate, nada disso aparece com a mesma nitidez. E sem brilho. Irreconhecível.
CONFUSO
E política é cruel nesse aspecto: o eleitor não avalia o candidato pelo que ele foi capaz de fazer oito anos atrás. Avalia o que está diante dele naquele momento.
Por enquanto, o Hildon dos debates parece uma versão em baixa resolução daquele que aprendeu a transformar frases em votos. Falta-lhe sobretudo concatenar ideias, responder ao que foi perguntado e ocupar o tempo com conteúdo - não com palavras.
CORREÇÃO
Se isso for apenas uma fase ruim, a campanha ainda oferece tempo para correção. Se for uma tendência, o problema será maior: porque quem pretende governar Rondônia precisa primeiro demonstrar que consegue governar o próprio raciocínio diante de uma pergunta.
LINHA
Um fato chamou a atenção de quem conhece os bastidores das campanhas no debate da Band: as intervenções de Samuel Costa, do PSB, que em outros tempos já serviu como auxiliar. Curiosamente, fez questão de dizer que o senador do PL seria o único candidato de direita – tudo o que a bolha extremista queria ouvir. A afirmação, além de conveniente, não resiste muito à realidade - e, se espremer o conceito ideológico até o limite, até o candidato petista pode encontrar algum espaço nessa classificação de direita. Candidato da esquerda clássica em Rondônia é lenda. Nem Samuel que já lançou elogios a Marcos Rocha, entre outros expoentes do conservadorismo local, é um esquerdista de carteirinha.
COINCIDÊNCIA
Mas o detalhe mais revelador veio depois. Samuel questionou Adaílton Fúria como representante da continuidade do governo Marcos Rocha. Coincidência ou não, esta é justamente uma das principais munições utilizadas pelos partidários de Marcos Rogério contra o candidato do PSD, principal concorrente. É aí que a política deixa de ser apenas discurso e começa a revelar os sinais dos bastidores. Samuel pode até negar qualquer alinhamento, mas, quando um candidato repete a narrativa e a estratégia de ataque de outro, a impressão que fica é a de uma linha auxiliar funcionando discretamente no campo de batalha.
RECORTES
Na política, ninguém precisa assinar recibo. Basta observar quem ataca quem, por onde e com quais argumentos. Às vezes, o discurso denuncia a aliança que a fotografia oficial tenta esconder. E há outro detalhe que os comitês eleitorais conhecem muito bem: declarações assim já nascem com vida própria nas redes. São recortadas, editadas e transformadas em vídeos curtos para serem exaustivamente distribuídas nas mídias digitais. Foi exatamente o que ocorreu. O que parecia apenas uma intervenção no debate ganhou as redes como munição política - e, nesse caso, reforçando duas narrativas convenientes ao candidato do PL.
IMPRESSÃO
Na política, certas coincidências têm a inconveniente mania de produzir cortes perfeitos. Não é possível cravar que houve combinação, mas é a impressão que ficou para quem tem experiência em bastidores eleitorais. E este cabeça chata é perito em bastidor. Poucos acordos em surdina firmado passa despercibido por este cabeça chata.
PAPAGAIO
Pedro Adib, candidato do MDB, é, sem dúvida, um homem instruído. Tem repertório, conhecimento e uma facilidade impressionante para falar. O problema é justamente o excesso: fala pelos cotovelos até cansar quem está do outro lado da tela. Lembra, em alguns momentos, o velho Enéas das eleições do século passado: falava tão depressa que o eleitor precisava escolher entre acompanhar o raciocínio ou simplesmente admirar a sapiência.
ESTRIDENTE
Adib produz efeito parecido. Parece aquele sujeito que sabe tudo, conhece tudo, estudou tudo - mas não consegue explicar nada sem transformar a resposta numa aula magna. No contato pessoal, é afável e agradável. No debate, entretanto, a transformação é completa. Fica prolixo, pedante e, sobretudo, barulhento. É capaz de sair da bomba atômica e chegar ao traque sem sequer perceber que o tempo acabou. E não fala: grita.
ESTRAVAGANTE
O telespectador, tranquilamente acomodado em casa, pode até se assustar. Em alguns momentos, a intensidade vocal é tanta que o sujeito diante da televisão pode imaginar que o boneco Chucky resolveu disputar o governo de Rondônia.
O problema é que preparo intelectual não é sinônimo de comunicação eficiente. Conhecimento só produz voto quando consegue ser compreendido. E uma campanha majoritária não é concurso para saber quem acumula mais referências, palavras difíceis ou assuntos improváveis. Mesmo sendo bem preparado.
AFÔNICO
Adib precisa descobrir que existe uma diferença entre demonstrar conhecimento e fazer o eleitor entender o que se pretende fazer com ele. Se continuar gritando no próximo debate, há uma possibilidade concreta de chegar afônico ao final da campanha. E talvez o eleitor, pela primeira vez, não reclame do silêncio.
ATAQUE
Expedito Netto aprendeu rapidamente alguns cacoetes petistas. Incorporou a barba malfeita ao figurino eleitoral e, ao que parece, também adotou o manual ideológico da nova casa. A filiação ao PT foi oficializada em janeiro e a candidatura ao Governo, em julho. No debate, porém, apareceu um Expedito diferente daquele parlamentar explosivo que passou pelo Congresso. Segurou o ímpeto e não caiu nas provocações de Samuel Costa, que o atacou reiteradamente pela crise que terminou com a dissolução do diretório estadual do PSB e a anulação da convenção que havia lançado candidaturas próprias.
CÁLCULO
A decisão nacional do PSB de barrar as candidaturas majoritárias em Rondônia e dissolver o diretório estadual está registrada pela imprensa. Samuel bateu do pescoço para baixo. Netto não devolveu no mesmo tom. Quando respondeu, preferiu a ironia ao confronto. Foi uma escolha calculada: não transformar o debate numa briga particular.
CONVERSÃO
Veio, entretanto, com o discurso pronto. Defesa de Lula, críticas ao bolsonarismo e a liturgia ideológica de quem acaba de vestir a camisa nova. Isso está coerente com a trajetória recente: o próprio PT apresentou sua filiação como um reforço ao partido e à esquerda em Rondônia. O problema é que, para disputar o Governo, não basta apresentar certidão de conversão política. É preciso apresentar um projeto para Rondônia.
APREDIZ
E foi aí que o candidato pareceu mais parlamentar do que governador. Falou sobre temas genéricos do serviço público, produziu algumas frases de efeito, mas pouco avançou em propostas concretas capazes de distinguir sua candidatura.
Quando provocado sobre questões do setor empresarial, também ficou evidente que administração pública não parece ser ainda o seu terreno mais confortável. Não propôs nada e nem nada convenceu. O que ainda não apareceu com a mesma clareza é a capacidade de transformar tudo isso em uma proposta de gestão. Os cacoetes de deputado federal continuam visíveis.
DIFERENÇAS
O problema é que governador não sobe ao palanque para fazer oposição ao adversário. Sobe para dizer o que fará com o Estado. Expedito Netto já aprendeu a falar como petista. Agora precisa aprender a falar como candidato a governador e agente entender. Porque uma coisa é defender Lula. Outra, bem mais complicada, é explicar como pretende governar Rondônia. Uma diferença óbvia. Precisa, portanto, aprender.
BAGRES
Até os bagres do Madeira sabem que a tese da “continuidade do governo” será explorada à exaustão durante a campanha, especialmente nos debates, como argumento para atingir Adaílton Fúria. É uma pauta previsível, anunciada e praticamente escrita no roteiro eleitoral. Além dos bagres, os “cabeças de bagre” da campanha também sabem disso. E, sabendo, deveriam ter preparado melhor o candidato para enfrentar a provocação.
ANTECIPANDO
Não basta reagir quando a pergunta chega. Em política, sobretudo em debate, é preciso antecipar a pergunta incômoda, preparar a resposta e, principalmente, controlar a narrativa antes que o adversário consiga fazê-lo. Há uma estratégia ainda mais eficiente: antecipar o próprio questionamento nas redes, responder antes e deixar claro qual será a posição do candidato. Assim, quando o adversário terceirizado vier com a pergunta ensaiada, ela chega velha ao debate.
PANTOMIMA
Porque o objetivo de certas perguntas não é apenas obter uma resposta. É produzir o corte. Vem a pergunta, a réplica, a tréplica e, minutos depois, tudo está circulando nas mídias digitais como se fosse espontâneo. Quem conhece campanha sabe que não existe improviso onde existe equipe de marketing. Se o adversário já sabe qual tecla vai apertar, chegar ao debate sem resposta preparada é oferecer o piano inteiro para ele tocar. Fúria precisa entender que, em campanha eleitoral, não se ganha apenas respondendo às perguntas nem prometendo o que não pode cumprir. Às vezes, ganha-se esvaziando-as antes que sejam feitas. Tem traquejo e parece um Ivo Cassol repaginado, mas peca no excesso de pantomimas. Foi um debate para ser esquecido. E tudo indica que somente este cabeça chata ainda não deletou.


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