PORTO VELHO, RO - O candidato ao Senado Aires Mota, do Partido Verde, classificou como um “erro grave” a privatização abordada durante a entrevista ao podcast RD Entrevista e afirmou que os efeitos do pedágio já chegaram diretamente ao bolso de quem precisa circular pelo interior de Rondônia. Em conversa com o jornalista Vinícius Canova, nos estúdios do Rondônia Dinâmica, em parceria com o Informa Rondônia, Mota também fez críticas à forma como parte da disputa eleitoral vem sendo conduzida, afirmou enxergar candidatos mais interessados em produzir conflitos e repercussão nas redes sociais do que em apresentar propostas e defendeu uma atuação política baseada em diálogo.
A declaração sobre a concessão surgiu quando Canova perguntou como o candidato avaliava o desempenho da bancada de Rondônia sem individualizar os atuais parlamentares. Mota respondeu que a própria população estaria dando essa resposta em reuniões e nas redes sociais e, ao mencionar temas que considera mal conduzidos, entrou na discussão sobre a BR-364 e sobre a hidrovia do Madeira. “A privatização é um erro que nós não devemos seguir. Foi cometido um erro grave ali. Ninguém tem detalhe do contrato, de como foi feito, qual é a participação, os detalhes que falam qual é a responsabilidade da empresa que ganhou a concessão. Os valores estão absurdos. Nada disso foi revisto antes”, declarou.
Segundo Aires Mota, a experiência deveria servir para que uma eventual discussão sobre a hidrovia do Madeira fosse conduzida de maneira diferente. Ele defendeu leitura criteriosa do contrato antes da consolidação das decisões e criticou a tentativa de reagir somente depois de o processo estar concluído. “Quando chegar na hora da hidrovia, nós vamos chamar, pegar isso, o contrato, vamos ler criteriosamente, analisar com muito critério todos os pontos para a gente poder fazer uma defesa e dar alguma sugestão para não acontecer o que aconteceu com a BR-364. Agora, o que tem que fazer? Brigar depois que já está tudo feito, já está tudo assinado, já está arrecadando”, afirmou.
O candidato relatou ter sentido pessoalmente o impacto das cobranças nas viagens realizadas durante a campanha. “Eu fiz uma, duas viagens para o interior. Quando voltei, tinha 40 e poucos reais de pedágios para pagar. Imagina quem tem uma empresa, que precisa de representante comercial, entrega no interior do estado. Como é que vai fazer? Como é que vai ficar o valor final do produto que ele está vendendo? Isso a população vai sofrer no bolso”, disse.
Outro dos momentos mais incisivos ocorreu quando a entrevista chegou à polarização política. Aires declarou que a divisão entre lulismo e bolsonarismo estaria prejudicando a avaliação individual dos candidatos. Para ele, parte do eleitorado passou a definir o voto mais pela rejeição ao adversário político do que pelas propostas apresentadas. “As pessoas estão escolhendo o candidato hoje não mais pela proposta, e sim pelo ódio. Ele vota em um com ódio do outro, vota no outro com ódio de um. Isso é péssimo para um país”, afirmou.
Mota disse discordar de determinadas políticas associadas à esquerda e, ao mesmo tempo, concordar com algumas posições identificadas com a direita. Ao explicar o lugar que atribui ao PV nesse debate, sustentou que a pauta ambiental não deveria ser incompatível com produção de alimentos. “O Partido Verde tem uma bandeira muito bonita, que é a questão ambiental, mas nós não somos radicais em relação a isso. Nós cobramos apenas responsabilidade ambiental. Nós somos a favor de matar a fome das pessoas, mas, se eu sou a favor de matar a fome, eu não posso ser contra quem cria, quem planta, não posso ser contra as pessoas que produzem alimento”, declarou.
Na sequência, o candidato elevou o tom ao comentar o comportamento de adversários, embora tenha deliberadamente evitado citar nomes. Segundo Mota, o Legislativo não deveria funcionar como espaço de confrontos fabricados. “A Câmara Municipal, a Assembleia Legislativa e o Congresso, a Câmara e o Senado, não são uma rinha de galo para ninguém sair brigando. É lugar de pessoas que têm diálogo, de pessoas inteligentes, que saibam analisar uma proposta, que saibam debater, que saibam dar o contraditório”, disse.
Foi nesse trecho que Aires fez uma das declarações mais duras da entrevista. “Eu vejo cada aberração aqui de candidato que eu não vou citar nome, porque eu sou uma pessoa ética, mas eu vejo cada coisa assim: não é possível que o povo não vai enxergar isso. Essa pessoa não tem compromisso com Rondônia, ela está querendo criar meme nos debates, está querendo arrumar confusão, está querendo ganhar curtida, ganhar like, e a proposta para o estado de Rondônia é muito pouquinha”, afirmou.
A relação interna da federação à qual pertence também entrou na entrevista. Questionado sobre a outra candidatura ao Senado apresentada pelo PT, Aires disse que ainda não havia conhecido pessoalmente a candidata e que ouvira referências positivas sobre ela. Ele chegou a associá-la inicialmente ao interior do estado e a Ji-Paraná, ponto corrigido pelo apresentador durante a conversa. “Não tivemos a oportunidade, porque no período de convenções ela não estava na cidade e nós não conversamos pessoalmente ainda. Desejo muita sorte a ela, que ela tenha sucesso, porque o sucesso dela vai ser o sucesso da federação, como o meu sucesso também será o sucesso da federação”, disse.
Mais adiante, Canova perguntou por que Aires não aparecia com frequência em eventos do grupo e mencionou uma aproximação do PT com Acir Gurgacz. Mota respondeu reconhecendo a relação política anterior entre o partido e o então citado aliado de Lula e afirmou que não pretendia transformar a situação em confronto. “Eu poderia estar muito bem lá brigando: ‘Não, vocês têm que votar em mim, que eu estou na federação’, e tal. Mas eu não tenho o histórico que ele tem, eu não tenho a relação de amizade que eles têm ao longo dos anos. Então eu estou tentando convencer o pessoal do PT a votar em mim, apresentando minha proposta, fazendo-me ser conhecido no meio do PT. Eu vou deixar eles decidirem, porque a imposição não é comigo”, declarou.
Aires acrescentou que não pretende cobrar apoio mediante imposição partidária e que não buscaria conflito nem com integrantes do PT nem com Gurgacz. “Eu respeito a boa vontade de cada um, respeito a vontade. Eu sou dirigente partidário, eu nunca fiquei obrigando candidato a estadual a votar no meu federal. Eu tento convencer, tento mostrar que esse é o caminho, que a fidelidade partidária é importante e tudo mais. Imposição, eu nunca fiz isso. Cada um é livre. Vivemos num país livre, cada um é livre para fazer o que quiser. Depois tem as consequências que cada um vai arcar lá na frente”, afirmou.
O cenário eleitoral desfavorável apontado ao candidato também foi abordado diretamente. Ao ser questionado sobre uma pesquisa divulgada na véspera da gravação, a Quaest*, que o apresentava com 0%, Mota contestou a capacidade dos levantamentos de antecipar o resultado e disse que outras pesquisas já haviam apresentado números diferentes para sua candidatura. Ainda assim, reconheceu que pesquisas funcionam como termômetro. “Quem tem convicção do que está fazendo, quem tem convicção das suas ideias, do seu ideal, não pode ficar preocupado com pesquisa eleitoral. Lógico que serve como termômetro”, declarou.
Na avaliação do candidato, a indefinição seria maior do que os números sugerem porque muitos eleitores ainda não teriam escolhido seus nomes para o Senado. Ele ressaltou ainda que, em 2026, o eleitor terá dois votos para o cargo. “Eu prefiro acreditar no povo, eu prefiro acreditar nas pessoas nos bairros por onde eu ando que falam que não têm candidato. Então essa é a minha principal pesquisa. Está tudo muito indefinido. Quem trabalhar mais, quem tiver alguma proposta mais convincente, quem ganhar a confiança do eleitor vai se sair melhor”, afirmou.
Aires aproveitou a discussão para atacar o que chamou de “cultura maldita do voto perdido”. Para ele, escolher um candidato que não vença não significa desperdiçar o voto; o desperdício ocorreria quando o eleito frustrasse o eleitor posteriormente. “Voto perdido não é quando você vota e o candidato perde. Voto perdido é quando você vota, o candidato é eleito e depois ele decepciona você. Depois ele vai preso, cassado por corrupção. Essa pessoa realmente perdeu o voto dela, e não quando você vota por conta que acha que o candidato tem chance ou menos chances”, disse.
Ao falar das condições financeiras de sua própria disputa, Aires descreveu a candidatura como uma campanha de recursos extremamente limitados. Segundo ele, o PV não disponibilizaria dinheiro do fundo eleitoral especificamente para sua candidatura ao Senado e priorizaria outras disputas. Mota afirmou que a legenda disporia de R$ 45 milhões, mencionou recursos destinados às candidaturas femininas, valores para deputados federais e uma reserva partidária antes de concluir que restaria uma quantia reduzida para divisão nacional.
“Além dos seis deputados eleitos que vão buscar a eleição, nós temos pelo menos mais seis que têm chances reais de ser eleitos. Então o partido resolveu fomentar a candidatura deles e deixar a gente aqui no sacrifício. Nós vamos para o sacrifício sem problema nenhum, eu sou parte dele. Nós vamos fazer uma campanha sem dinheiro. Você vai ver que minha conta vai estar praticamente zerada ao longo da campanha”, declarou. Ele afirmou que pretende compensar a ausência de estrutura financeira com apoio de amigos, diretórios municipais e espaços de comunicação.
Mesmo diante dessa limitação, Aires disse acreditar na possibilidade de vitória. Ao responder se considerava realisticamente possível conquistar uma das cadeiras, usou o número de concorrentes e vagas como raciocínio inicial. “Eu já começo a eleição com 10% de chances, porque são dez candidatos para duas vagas, tenho ali no mínimo 10% de chances. Então eu acredito que só acaba quando termina. Eu já vi muita surpresa aqui na política, não só aqui em Rondônia como em outros estados também”, declarou.
O candidato afirmou não criticar adversários que disponham de dinheiro para carros adesivados, músicas e mobilização de rua. Disse que, caso tivesse condições semelhantes, também utilizaria esses recursos. “Não é o fato de eu não ter que eu vou criticar quem tem. Não tem nada a ver com isso, porque, se eu tivesse, eu também faria isso. Mas isso não me desmotiva em momento algum”, afirmou.
Ao apresentar suas propostas, Aires colocou como prioridade de um eventual mandato a cooperação com o Governo de Rondônia independentemente de quem vencer a eleição estadual. “Eu jamais vou fazer a política de quanto pior, melhor só para poder apontar os erros e defeitos da outra gestão. Vou fazer críticas construtivas, vou fiscalizar também, vou ficar de olho, mas eu não vou fazer a política do quanto pior, melhor. Minha prioridade é ajudar a administrar o estado de Rondônia, em Brasília defender o estado de Rondônia, buscar recurso, ampliar o mercado internacional para o estado de Rondônia”, disse.
Entre os temas que pretende levar ao Senado, Mota destacou o movimento sindical. O candidato afirmou que a defesa de trabalhadores independeria de posicionamento ideológico. “Trabalhador de Rondônia, seja ele da iniciativa privada, servidor público da esfera municipal, estadual ou federal, não importa se você é de direita, de centro ou de esquerda, mas você vai concordar comigo: todos os benefícios que o trabalhador recebeu até hoje foram através do movimento sindical”, declarou.
Aires também se posicionou sobre o fim da escala 6 por 1. Sem apresentar prazo ou detalhar uma proposta legislativa específica durante a entrevista, disse acreditar na aprovação da mudança. “Eu acho que a escala 6 por 1, fim da escala, vai passar a qualquer momento, vai passar, eu acredito que vai passar”, afirmou. Em seguida, direcionou a discussão para o custo da contratação de empregados e defendeu que micro, pequenos e médios empresários também fossem ouvidos na formulação das políticas trabalhistas.
Na avaliação de Mota, facilitar a geração de vagas exige conciliar proteção ao trabalhador e condições para quem emprega. Ele relatou que costuma perguntar a empresários quantos funcionários mantêm e se poderiam contratar mais e afirmou ouvir como resposta que a carga tributária limita novas admissões. “Eu preciso dar condição, ter política para que o empregador consiga ter condições de empregar mais e, ao mesmo tempo, eu votar honrando o trabalhador que quer ingressar no mercado de trabalho através das vagas que nós vamos gerar com nossas políticas”, declarou.
A discussão sobre desenvolvimento incluiu ainda transporte aéreo e produção rural. Questionado sobre poucos voos e tarifas elevadas, Aires defendeu negociação com empresas e governo e disse que qualquer ampliação precisaria considerar viabilidade econômica. Ao falar do futuro de Rondônia, declarou-se otimista pela capacidade de produção de alimentos e defendeu simplificação de procedimentos para pequenos produtores, inclusive na área ambiental.
Na parte biográfica da conversa, Aires afirmou ter nascido em Porto Velho, ser filho de uma costureira e de um auxiliar de serviços gerais e ter ficado órfão de pai aos seis anos, após uma morte que definiu como trágica. Disse ter ingressado na política ainda em 1990 e relatou que o interesse surgiu ao observar analistas e dirigentes fazendo cálculos eleitorais e discutindo a formação das chapas e o futuro dos partidos. Mota se apresentou ainda como um dos dirigentes partidários mais antigos em atividade no estado e afirmou ter participado do registro de quase mil candidaturas ao longo dos anos.
Ao lembrar a chamada Caminhada Esperança, disse ter participado desde a primeira reunião e afirmou que a iniciativa buscava reunir o campo progressista em torno de um candidato ao Governo de Rondônia e dois candidatos ao Senado. Segundo ele, divergências e decisões partidárias tomadas durante o processo acabaram levando as siglas por caminhos diferentes. Mota sustentou que, como dirigente, sempre preferiu incentivar candidaturas a tentar bloqueá-las.
No encerramento do RD Entrevista, Aires voltou à defesa de uma aproximação entre trabalhadores e empresários e pediu confiança dos eleitores. Afirmou que pretende atuar em favor da geração de empregos e reiterou que colaboraria com qualquer governador eleito, mesmo que não fosse o candidato de seu próprio grupo político. “Eu não vou olhar para o nome, nem sigla partidária, eu quero ajudar o estado de Rondônia. Não esqueçam, são dois votos”, declarou ao concluir sua participação.
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*A Quaest ouviu 804 pessoas de 16 anos ou mais entre os dias 21 e 24 de agosto de 2026. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O levantamento foi registrado no TSE com os números RO-05711/2026 e BR-00490/2026.


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