PORTO VELHO, RO - A sequência de crimes registrada em Porto Velho nos últimos dias colocou a segurança pública no centro da pré-campanha de 2026 em Rondônia. Execuções em via pública, prisões de suspeitos vinculados a organizações criminosas, denúncias de “tribunal do crime”, incêndio de veículo, sequestro de taxista e pichações com ameaças a moradores e motoristas criaram um ambiente no qual o medo passou a alimentar não apenas o noticiário policial, mas também a construção dos discursos eleitorais.
O cenário não se resume a ocorrências dispersas. A repetição de episódios no Orgulho do Madeira, no Porto Madero II, no Morar Melhor e em outros pontos das zonas Leste e Sul de Porto Velho revela uma violência concentrada em territórios específicos, nos quais grupos criminosos procuram controlar a circulação de pessoas, intimidar moradores e estabelecer regras próprias. A disputa eleitoral começa a incorporar essa realidade como um dos principais argumentos para a apresentação de candidaturas, alianças e projetos de poder.
A segurança pública oferece aos pré-candidatos um tema de forte impacto emocional, capacidade de mobilização e fácil transformação em mensagem política. Diante de execuções, ameaças e demonstrações públicas de poder criminoso, expressões como “reação firme”, “tolerância zero” e “penas mais severas” encontram um ambiente favorável. O risco está em substituir a complexidade do problema por frases capazes de produzir repercussão imediata, mas insuficientes para explicar como o Estado pretende recuperar de forma permanente os territórios atingidos.
O senador e pré-candidato Marcos Rogério, ao lado de Bruno Bolsonaro Scheid, defendeu reforço policial, investimentos em inteligência e integração entre as forças de segurança. Ao tratar publicamente da violência, Marcos Rogério afirmou: “Quem aterroriza a população não pode continuar impondo o medo e ditando as regras.” A declaração traduz um posicionamento que deverá ocupar espaço central em sua construção eleitoral: a apresentação de uma candidatura associada à reação estatal, ao enfrentamento ostensivo e à recuperação da autoridade pública.
A estratégia encontra respaldo na gravidade dos acontecimentos. Quando criminosos escrevem frases como “abaixe os vidros” e “risco de tiro” dentro de um residencial popular, a violência deixa de representar somente uma ameaça individual. As mensagens funcionam como ordens destinadas a todos os que circulam pelo território. Motoristas de aplicativo, taxistas, moradores, entregadores, lideranças comunitárias, servidores públicos e agentes políticos passam a se deslocar sob regras estabelecidas por grupos armados.
Nesse ambiente, a fala de Marcos Rogério procura estabelecer um antagonismo direto entre a autoridade legítima do Estado e a autoridade imposta pelo crime. Politicamente, trata-se de uma construção poderosa. O pré-candidato pode apresentar cada episódio de violência como demonstração de que Rondônia precisa de uma mudança na condução da segurança pública. A eficácia eleitoral desse discurso, porém, dependerá da capacidade de ultrapassar a condenação genérica da criminalidade e apresentar respostas compatíveis com a dimensão territorial, financeira e operacional das facções.
O deputado Delegado Rodrigo Camargo, apontado como pré-candidato a vice-governador na chapa de Marcos Rogério, adota linguagem ainda mais incisiva. Camargo defendeu “tolerância zero”, relacionou a atuação das facções à ocupação de condomínios populares e à extorsão de provedores de internet e declarou que “Rondônia será o estado mais seguro para se viver”. A segurança, nesse caso, não aparece como um tópico complementar, mas como elemento definidor da identidade política da chapa.
A atuação de Camargo também expõe a complexidade da disputa. Ao mesmo tempo em que sustenta um discurso de respaldo ao enfrentamento do crime organizado, o deputado criticou uma ação policial realizada no Orgulho do Madeira. A segurança pública passa, assim, a ser utilizada em duas frentes: como bandeira programática contra as facções e como instrumento de fiscalização e confronto político com a administração estadual.
Essa movimentação mostra que as operações policiais não serão avaliadas apenas por seus resultados operacionais. Cada prisão, apreensão, incursão ou manifestação de autoridade poderá ser disputada politicamente. O governo estadual tenderá a apresentar as ações como demonstração de presença e capacidade de reação. Os adversários poderão reconhecer o trabalho das forças de segurança e, simultaneamente, argumentar que a necessidade de operações sucessivas comprova a profundidade do problema.
A administração estadual e as forças de segurança realizaram respostas de grande porte. A Operação Audácia XI, deflagrada em 7 de julho, reuniu 89 mandados de busca e apreensão e 35 mandados de prisão, totalizando 124 medidas judiciais em Rondônia, Acre, Amazonas e Paraná. A ofensiva teve como alvo o tráfico de drogas, o porte ilegal de armas e as estruturas financeira e bélica de organização criminosa atuante em áreas periféricas e residenciais.
Também houve atuação da FICCO/RO, prisões realizadas pelo 5º BPM e pelo Batalhão de Policiamento Tático de Ação e Reação, apreensões de armas e drogas e reforço ostensivo no Orgulho do Madeira. O apagamento das pichações pelo comando do 5º BPM representou uma resposta simbólica às ordens deixadas pelos criminosos. Ao remover as mensagens, a Polícia Militar procurou demonstrar que o poder público não aceitaria a instalação visível de normas impostas por facções.
Essas ações devem ser reconhecidas como parte necessária do enfrentamento. A sequência de crimes registrada após a Operação Audácia XI, contudo, mostra que uma operação de grande porte não produz retração imediata da violência territorial. Prisões e apreensões atingem estruturas criminosas, mas a recuperação do cotidiano exige presença continuada, investigação, inteligência, integração entre instituições e serviços públicos capazes de impedir que o território volte a ser ocupado pela intimidação.
A crítica à administração estadual, portanto, não precisa assumir tom de condenação generalizada. O governo reagiu, mobilizou forças e apresentou respostas públicas. O ponto político mais sensível está na necessidade de transformar operações emergenciais em uma estratégia permanente. A disputa de autoridade não termina com uma coletiva, uma apreensão ou a retirada de uma pichação. Ela prossegue quando moradores precisam entrar e sair de casa, quando motoristas recebem chamados para determinados residenciais e quando trabalhadores realizam atividades em áreas marcadas pela ameaça.
Hildon Chaves também vinha incorporando o tema à sua plataforma política. O ex-prefeito declarou que “segurança pública não se faz com discurso” e defendeu o endurecimento das penas. Embora sua reação aos episódios mais recentes não tenha aparecido com a mesma intensidade observada nas manifestações de Marcos Rogério e Rodrigo Camargo, a posição confirma que a segurança se tornou um eixo transversal entre pré-candidaturas competitivas.
A frase de Hildon contém uma crítica que também pode ser aplicada ao próprio debate eleitoral. Ao sustentar que a segurança não se faz apenas com discurso, o pré-candidato assume a obrigação de demonstrar quais medidas administrativas, policiais, sociais e institucionais dariam conteúdo à afirmação. A mesma exigência vale para Marcos Rogério, Bruno Bolsonaro Scheid, Rodrigo Camargo e qualquer outro nome que transforme a violência em plataforma de pré-campanha.
A defesa de penas mais severas pode integrar uma visão de segurança, mas não responde sozinha ao controle cotidiano exercido dentro de residenciais. A promessa de “tolerância zero” produz uma mensagem clara, mas precisa ser acompanhada de critérios operacionais, planejamento e respeito aos moradores que vivem nas áreas atingidas. O reforço policial é indispensável em momentos de crise, mas sua eficácia depende de continuidade investigativa e capacidade de impedir a recomposição das estruturas criminosas.
O Orgulho do Madeira concentra a dimensão mais delicada desse debate. O residencial reúne 4 mil unidades habitacionais e uma população estimada em aproximadamente 16 mil pessoas. Transformá-lo apenas em símbolo da criminalidade seria reduzir milhares de moradores à condição de figurantes de uma guerra política e policial. O local é, simultaneamente, espaço de moradia popular, alvo de ações de cidadania e assistência, território submetido à pressão criminosa e palco de demonstrações de força do Estado.
A pré-campanha encontrará no residencial imagens de forte impacto: pichações ameaçadoras, policiais apagando ordens criminosas, operações, armas apreendidas e suspeitos presos. Essas imagens possuem enorme capacidade de circulação nas redes sociais. Podem ser usadas pelo governo para demonstrar reação, pelos adversários para apontar deterioração da segurança e pelos pré-candidatos para sustentar promessas de mudança.
O desafio jornalístico e político consiste em não permitir que os moradores desapareçam atrás dessa disputa. Quando o Orgulho do Madeira é tratado somente como território de facção, a população civil é confundida com os grupos que a intimidam. Quando a reação estatal é apresentada apenas como espetáculo, são desconsiderados os riscos enfrentados pelos policiais e a necessidade concreta de intervenção. A realidade exige a preservação das duas dimensões: existe coerção criminosa relevante e existe uma comunidade que não pode ser criminalizada por morar sob essa pressão.
A situação dos motoristas evidencia como o controle territorial alcança pessoas que não participam diretamente das disputas entre facções. Um motorista de aplicativo foi rendido por homens armados e encapuzados no Morar Melhor. Um taxista foi sequestrado, e os criminosos tentaram realizar um ataque no Orgulho do Madeira. Depois, as pichações passaram a dirigir ameaças coletivas à categoria. A passagem do assalto individual para a imposição de regras gerais demonstra uma tentativa de disciplinar quem pode entrar, sair ou circular.
Esse tipo de intimidação também pode afetar a própria eleição. Campanhas dependem de deslocamentos, reuniões comunitárias, gravações, distribuição de materiais e presença de candidatos em bairros e residenciais. Quando determinadas áreas passam a ser associadas a risco de tiros, sequestros e ordens criminosas, a circulação política pode ser reduzida. A violência territorial interfere no ambiente eleitoral mesmo sem existir prova de que alguma facção esteja atuando para beneficiar ou prejudicar uma candidatura específica.
Essa distinção é indispensável. Os acontecimentos sustentam a conclusão de que a violência já molda a linguagem e as prioridades da disputa de 2026. Não sustentam, entretanto, a afirmação de que organizações criminosas estejam coordenando uma intervenção eleitoral em favor de determinados nomes. A evidência disponível mostra instrumentalização política da crise, não captura comprovada do processo eleitoral.
A campanha tende a produzir uma competição sobre quem demonstra maior firmeza. Marcos Rogério buscará associar sua candidatura à reação e à integração das forças. Bruno Bolsonaro Scheid participa dessa formulação dentro do campo político do PL. Rodrigo Camargo procura ocupar o espaço do enfrentamento direto, com a experiência policial incorporada à identidade eleitoral. Hildon Chaves tenta vincular sua posição ao endurecimento penal e à afirmação de que a segurança exige ações concretas.
Nenhum desses discursos deve ser descartado apenas por ter finalidade eleitoral. A disputa política também serve para apresentar prioridades e cobrar resultados. O problema surge quando cada crime é usado como confirmação automática de uma tese previamente construída, sem exame das circunstâncias, das investigações e das responsabilidades institucionais. A segurança pública não pode ser reduzida a uma sequência de vídeos, frases de impacto e acusações trocadas nas redes sociais.
Os pré-candidatos têm o direito de criticar, propor e disputar a condução da segurança. O governo tem o direito de apresentar as operações realizadas e defender o trabalho das forças estaduais. A população, porém, precisa de uma discussão que vá além da tentativa de conquistar autoridade eleitoral por meio do medo. O avanço das facções em territórios populares exige planejamento de longo prazo, presença pública permanente e reconhecimento de que a proteção dos moradores representa o objetivo central, não apenas o cenário de uma batalha política.
A violência já entrou na pré-campanha de Rondônia. A questão que permanecerá até 2026 será a capacidade de cada grupo político transformar indignação em proposta, promessa em planejamento e operação emergencial em segurança cotidiana. Quem utilizar os episódios apenas como ferramenta de propaganda poderá conquistar atenção momentânea. Quem demonstrar como pretende recuperar territórios sem abandonar ou criminalizar seus moradores terá condições de apresentar uma resposta mais consistente à crise que começa a definir o debate eleitoral no estado.


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