Com base no Ato Institucional nº 1, em 13 de junho de 1964 foi cassado o mandato do deputado federal Renato Medeiros, eleito por Rondônia em 1962. Assim se encerrava a carreira política do médico Renato Clímaco Borralho de Medeiros, vítima da ditadura civil-militar instaurada em 1964.
Recentemente celebrou-se o 13 de maio, data da abolição da escravidão no Brasil. Trata-se de uma data rechaçada pelo Movimento Negro como marco de comemoração. Para o movimento, a principal data de celebração da luta e da resistência da população negra é 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, em memória do grande líder Zumbi dos Palmares. No entanto, o 13 de maio merece profundas reflexões. Inclusive, já escrevi sobre essa questão. E foi justamente em uma dessas reflexões que reencontrei a figura do médico negro paraense Renato Medeiros, grande líder político dos tempos do Território Federal do Guaporé, posteriormente, Rondônia.
Essa reflexão despertou em mim a consciência da necessidade urgente de resgatar o nome e a trajetória desse que foi um dos maiores líderes políticos da história de Rondônia. Os movimentos negros do nosso estado precisam pesquisar, estudar, debater e escrever sobre Renato Medeiros, uma das figuras mais importantes da história política rondoniense durante o período territorial.
Sim, o Dr. Renato Medeiros era negro. Diferentemente de Nilo Peçanha, que, segundo muitos historiadores, procurava minimizar ou ocultar sua ascendência negra, Renato Medeiros assumia sua identidade racial sem qualquer constrangimento.
Nascido no Pará, em 30 de março de 1912, formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina do Pará, em 1938. Em 1962, elegeu-se deputado federal pelo então Território Federal de Rondônia, concorrendo pelo PSP, grupo político conhecido como "pele-curtas". Na eleição, derrotou o candidato do PSD/PTB, coronel Ênio dos Santos Pinheiro, integrante do grupo dos "cutubas", liderado pelo coronel Aluízio Ferreira. Infelizmente, não conseguiu concluir seu mandato, sendo cassado em 13 de junho de 1964, em decorrência do golpe militar de 31 de março daquele ano.
Aqui cabe um mea-culpa. Em meados da década de 1980, fundamos em Porto Velho o Movimento de Criação Cabeça de Negro, o primeiro movimento negro de Rondônia. Havíamos acabado de sair da ditadura civil-militar e o país vivia uma intensa efervescência democrática. Naquela época, pouco ou quase nada se falava sobre Renato Medeiros por estas bandas. A ditadura havia silenciado seu nome e sua história.
Eu mesmo já havia ouvido falar de Renato Medeiros, mas sequer imaginava que ele era negro. E o nosso movimento acabou deixando passar a importância de sua trajetória como líder político negro nos tempos do Território de Rondônia. Ficam aqui as desculpas do Movimento de Criação Cabeça de Negro por esse lapso histórico.
Ressaltar a figura do Dr. Renato Medeiros nas lutas do movimento negro em Rondônia é fundamental para conhecermos melhor nossa história e fortalecermos nossa identidade cultural. Seu nome deve fazer parte permanente da pauta do movimento negro rondoniense.
II "Negro, médico, músico, amante do futebol e socialista. Nascido em 30 de março de 1912, na cidade de Belém do Pará. Filho do técnico em Raios X Raimundo Nonato de Medeiros e da dona de casa Ana Augusta Borralho de Medeiros.”
No período do Território Federal do Guaporé e, posteriormente, de Rondônia, quem efetivamente comandava estas paragens — "mandava e sabia mandar", nas palavras do jornalista e então proprietário do jornal Alto Madeira, Euro Tourinho — era o coronel Aluízio Ferreira. Desde 1932, com o processo de nacionalização da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, ele vinha construindo e comandando, com mão firme, o que futuramente se transformaria no Estado de Rondônia.
Renato Medeiros chegou a Porto Velho em 1942, a convite do médico Rubens Brito, cunhado de Aluízio Ferreira. Pelas circunstâncias peculiares da política, tornou-se opositor do poder centralizado exercido pelo coronel. E assim permaneceu até ser cassado pela ditadura civil-militar em 1964.
Médico por vocação e dedicação, Renato Medeiros não possuía consultório fixo. Conforme relatam aqueles que viveram naquela época, atendia seus pacientes em suas próprias residências, muitas vezes deslocando-se a cavalo e, posteriormente, em um velho jipe. Não havia horário nem distância que o impedissem de exercer sua missão. Tornou-se o médico do povo, atendendo desde Porto Velho até Guajará-Mirim.
Graças à sua atuação humanitária e ao compromisso com os mais necessitados, Renato Medeiros consolidou-se como uma das maiores lideranças populares dos tempos do Território do Guaporé e de Rondônia.
Por enfrentar a oligarquia comandada por Aluízio Ferreira, Renato Medeiros sofreu perseguições de toda ordem. Porém, jamais recuou. Continuou sua luta em defesa das causas populares e da justiça social. Acima de tudo, era um humanista.
Além das perseguições político-partidárias, seus adversários recorriam frequentemente ao preconceito racial. Nas passeatas dos aluizistas, era comum a presença de um boneco preto chamado "Peteleco", utilizado de forma pejorativa para ridicularizar o candidato Renato Medeiros.
Sobre isso, registra o jornalista, escritor, Zola Xavier: "Dr. Renato Medeiros, ao longo de sua trajetória política no Território de Rondônia, além das inúmeras infâmias, arbitrariedades e injustiças, sofreu manifestações racistas veiculadas pelo jornal O Guaporé, porta-voz do pensamento aluizista, que sistematicamente o chamava de 'Louro'."
A cidade de Porto Velho, onde Renato Medeiros viveu, trabalhou e exerceu sua militância política, ainda lhe deve um reconhecimento à altura de sua importância histórica.
Onde estão a grande avenida, a escola de referência, o prédio público ou o monumento que perpetuem sua memória? Onde estão o busto ou a estátua do Dr. Renato Medeiros em Porto Velho?
Essa cobrança deve ser permanente por parte do movimento negro de Porto Velho e de Rondônia.
Entretanto, o problema central talvez seja outro: não conhecemos suficientemente a nossa própria história. Como homenagear alguém cuja trajetória permanece desconhecida da maior parte da população?
Por isso, fica o convite. Você que mora, trabalha, constrói sua família e ajuda a desenvolver esta terra, mesmo que não tenha nascido aqui, procure conhecer um pouco mais da história da cidade e do estado onde vive. Conhecendo melhor o nosso passado, aprenderemos também a respeitar e cuidar melhor do lugar que chamamos de lar.
Para compreender a trajetória do médico, político e líder negro Renato Medeiros, bem como o contexto político de Rondônia em sua época, vale a leitura da obra Uma Frente Popular no Oeste do Brasil – Do Incêndio na Catedral ao Palacete Rio Madeira e Outras Histórias do Território Federal de Rondônia, do jornalista Zola Xavier. Trata-se de uma importante contribuição para a preservação da memória política e social de Rondônia.
III Renato Medeiros e o Silêncio da História
A história não é apenas a narrativa dos fatos que aconteceram. Ela é também o resultado de escolhas sobre quais fatos serão lembrados, quais personagens serão exaltados e quais serão relegados ao esquecimento. Por isso, muitos historiadores afirmam que a história, durante longos períodos, foi escrita pelos vencedores. Não porque os vencidos não tenham existido ou não tenham contribuído para a construção da sociedade, mas porque os vencedores geralmente controlam os mecanismos de poder responsáveis pela produção da memória coletiva.
Os regimes autoritários sempre compreenderam a importância estratégica da memória. Governar não significa apenas controlar o presente; significa também controlar a interpretação do passado. Quando um governo totalitário ou uma ditadura busca consolidar seu poder, uma de suas primeiras preocupações é definir quem serão os heróis e quem serão os inimigos da nação. A partir desse momento, inicia-se um processo sistemático de seleção da memória social.
Ao longo da história mundial, inúmeros líderes políticos, intelectuais, artistas e militantes foram apagados dos livros, das homenagens públicas e das narrativas oficiais simplesmente porque representavam ideias consideradas inconvenientes pelos grupos dominantes. Em muitos casos, não bastava derrotar o adversário politicamente; era necessário eliminá-lo simbolicamente, retirando-o da memória coletiva.
Foi exatamente esse fenômeno que atingiu o médico e líder político Renato Medeiros.
Negro, médico humanista, defensor das camadas populares e uma das maiores lideranças políticas do então Território Federal do Guaporé, posteriormente Rondônia, Renato Medeiros construiu sua trajetória em oposição às estruturas oligárquicas que dominavam a política regional. Sua popularidade não nasceu dos gabinetes nem das alianças de poder, mas do contato direto com o povo. Era o médico que percorria longas distâncias para atender os mais pobres, muitas vezes sem cobrar pelos serviços prestados.
Sua eleição para deputado federal em 1962 representou a ascensão de uma liderança popular que desafiava os grupos políticos tradicionais. Entretanto, o golpe civil-militar de 1964 alterou profundamente o cenário político brasileiro. A cassação de Renato Medeiros, em junho daquele ano, não significou apenas a perda de seu mandato. Representou também o início de um processo de invisibilização histórica.
As ditaduras não se limitam a prender, censurar ou cassar. Elas procuram moldar a memória social. Buscam fazer com que determinadas figuras desapareçam do imaginário popular. O silêncio torna-se uma forma de punição tão eficaz quanto a prisão. Afinal, um líder esquecido deixa de inspirar novas gerações.
No caso de Rondônia, o apagamento da figura de Renato Medeiros torna-se ainda mais significativo quando observamos sua condição de homem negro em uma sociedade marcada por profundas desigualdades raciais. Durante décadas, a história oficial brasileira privilegiou a exaltação de líderes militares, governantes, empresários e membros das elites políticas, enquanto a participação de negros, indígenas, trabalhadores e movimentos populares permaneceu à margem dos relatos históricos.
Não é por acaso que muitos rondonienses conhecem os nomes dos governadores, dos coronéis e dos administradores territoriais, mas pouco ou nada sabem sobre Renato Medeiros. O esquecimento não ocorre espontaneamente. Ele é produzido socialmente. Quando uma figura histórica deixa de ser estudada nas escolas, deixa de receber homenagens públicas, deixa de aparecer nos livros e nos monumentos, sua ausência passa a parecer natural, quando, na verdade, é resultado de um processo político e cultural.
O sociólogo francês Pierre Bourdieu chamava isso de poder simbólico: a capacidade de definir quais pessoas, ideias e valores serão reconhecidos como legítimos pela sociedade. Quem controla esse poder influencia não apenas a política do presente, mas também a memória do passado.
Por isso, resgatar a trajetória de Renato Medeiros não é apenas um exercício de justiça histórica. É um ato político de reconstrução da memória coletiva de Rondônia. Significa reconhecer que a formação do estado não foi obra exclusiva das elites dirigentes, mas também de homens e mulheres que desafiaram estruturas de poder em defesa dos setores populares.
Mais do que um médico ou um deputado cassado, Renato Medeiros representa uma parte da história que permaneceu silenciada durante décadas. Sua trajetória demonstra que a construção de Rondônia não pode ser compreendida apenas pela ótica dos vencedores. É preciso ouvir também as vozes daqueles que foram derrotados politicamente, perseguidos ideologicamente ou simplesmente esquecidos pelos mecanismos oficiais da memória.
Uma sociedade democrática amadurece quando é capaz de revisitar criticamente o seu passado. Não para substituir uma narrativa oficial por outra, mas para ampliar o campo da memória, incorporando personagens que foram excluídos da história dominante.
Enquanto a memória de Renato Medeiros permanecer restrita a poucos estudiosos e antigos contemporâneos, Rondônia continuará devendo uma parte de sua própria história. Resgatar sua trajetória é reconhecer que a democracia também se constrói pela lembrança daqueles que o autoritarismo tentou apagar.
OBS: O título da coluna “CULTURA & HISTÓRIA EM TRÊS TEMPOS” é uma homenagem ao jornalista Paulo Queiroz.



Comentários
Seja o primeiro a comentar!