1.Todos os anos, milhares de pessoas se reúnem, no sábado de carnaval, no cordão chamado Banda do Vai Quem Quer, cantando fervorosamente o hino do maior bloco carnavalesco da região Norte:
“Chegou a banda, a banda, a banda
A Banda do Vai Quem Quer
Nós não temos preconceito
Na brincadeira entra quem quiser.
Já tentei brincar organizado,
Isso nunca deu pé.
Hoje eu estou organizado
Na Banda do Vai Quem Quer.”
A letra do hino da Banda do Vai Quem Quer, composta por Sílvio Macedo Santos (Zekatraca), é uma celebração do espírito popular e democrático do carnaval de Porto Velho.
Em resumo, a canção exalta a ideia de um carnaval livre, espontâneo e sem distinção social — exatamente como a proposta da Banda: vai quem quer, sem convite, sem barreiras e sem exclusão. A letra valoriza a alegria coletiva, a irreverência e a ocupação das ruas pelo povo, transformando a cidade em um grande espaço de festa e pertencimento.
Também há um forte sentido de identidade local. O hino funciona como um retrato da cultura carnavalesca porto-velhense, reforçando tradições, memórias e o sentimento de comunidade. Como compositor popular, Zekatraca conseguiu traduzir em música aquilo que sempre entendeu como essência da cultura: o povo como protagonista.
Mais do que uma marchinha ou um samba de bloco, a música virou um símbolo afetivo da cidade. Quando ela toca, não anuncia apenas o carnaval; anuncia uma memória coletiva, uma tradição que atravessa gerações e ajuda a contar a história cultural de Porto Velho.
2. Sílvio Macedo Santos, conhecido popularmente Sílvio Santos ou Zekatraca, foi um dos maiores nomes da cultura popular e do jornalismo cultural de Rondônia, especialmente de Porto Velho.
Nascido em 8 de dezembro de 1946, na localidade de Santa Terezinha, no distrito de São Carlos, em Porto Velho, Sílvio cresceu em meio às tradições ribeirinhas e folclóricas da Amazônia, ambiente que moldou sua visão cultural e artística. Desde muito jovem revelou talento para a música e para a escrita. Ainda adolescente, começou a compor marchinhas de carnaval e, pouco tempo depois, tornou-se autor de sambas-enredo que ajudaram a consolidar a identidade carnavalesca da capital rondoniense.
Sua trajetória profissional começou cedo, quando trabalhou como office-boy no tradicional jornal Alto Madeira e, posteriormente, ingressou na Rádio Caiari como sonoplasta, iniciando ali uma longa caminhada na comunicação. Com o tempo, transformou-se em referência no jornalismo cultural, escrevendo por décadas a coluna “Lenha na Fogueira”, espaço onde registrava acontecimentos do carnaval, do boi-bumbá, do folclore e das manifestações artísticas de Rondônia.
Como ativista cultural, foi um dos fundadores de importantes instituições do carnaval porto-velhense, entre elas a Banda do Vai Quem Quer, criada em 1981, além de escolas de samba tradicionais como Os Pobres do Caiari e a Acadêmicos do São João Batista. Também teve forte atuação no boi-bumbá, como amo do Boi Corre Campo, acumulando dezenas de toadas apresentadas no Arraial Flor do Maracujá.
Sua inteligência era reconhecida pela capacidade de unir memória, crítica e paixão popular. Zekatraca compreendia a cultura não apenas como festa, mas como patrimônio histórico. Era um cronista da vida cultural rondoniense, guardião de histórias, personagens e tradições que poderiam ter se perdido no tempo sem seu registro.
Certamente foi o jornalista que mais entrevistou personalidades da nossa cultura e da nossa história. Só as entrevistas do Sílvio Santos dessas personalidade, se copiladas e editadas, já imortalizaria seu nome como um dos maiores no registro da cultura e da história do estado de Rondônia, notadamente, da cidade de Porto Velho.
Membro da Academia Rondoniense de Letras, também deixou contribuições literárias e históricas, reforçando seu papel como intelectual popular.
Sílvio faleceu em 30 de outubro de 2021, aos 74 anos, vítima de complicações da Covid-19, deixando um vazio profundo na cultura e no jornalismo de Rondônia. Sua ausência permanece sentida porque ele não apenas narrava a cultura: ele era parte viva dela.
3. Porto Velho é uma cidade de muitas vozes. Vozes que vêm do rio, das ruas antigas, dos mercados, dos terreiros, dos barracões de boi-bumbá, das escolas de samba e das esquinas onde a memória insiste em permanecer viva. Mas toda cidade também tem seus guardiões — aqueles que recolhem essas vozes e as transformam em registro, para que o tempo não as devore. E, em Porto Velho, um desses grandes guardiões foi Sílvio Macedo Santos, o jornalista Sílvio Santos, o Zekatraca.
Sílvio não era apenas jornalista. Era uma espécie de cronista da alma popular de Rondônia. Tinha a rara inteligência de entender que cultura não mora só nos livros ou nos salões oficiais; ela vive no povo, na batida do tambor, na toada do boi, no samba-enredo cantado com suor e paixão. Ele sabia ouvir o que poucos ouviam. E mais: sabia traduzir isso em palavras.
Seu olhar era afiado. Sua memória, impressionante. Seu texto carregava informação, crítica, humor e uma profunda intimidade com a história cultural de Porto Velho. Como poucos, conhecia os bastidores, os personagens, os conflitos e as glórias que construíram a identidade cultural da cidade. Na coluna “Lenha na Foqueira”, seu codinome virou assinatura de autoridade e irreverência. Ali, entre notícias e fofocas do meio cultural, ele fazia algo maior: preservava o movimento vivo da cultura local.
Sílvio era desses homens raros que transitavam com naturalidade entre o popular e o intelectual. Cantava, compunha samba-enredo, fazia toada de boi-bumbá, era amo de boi e escrevia com a mesma grandeza com que vivia a cultura. Não observava de longe; mergulhava nela. Era parte da própria história que narrava.
E talvez seja exatamente isso que faz sua ausência pesar tanto. Quando um homem como Zekatraca parte, não deixa apenas saudade. Deixa um vazio de leitura, de interpretação, de registro. Porque a cultura de uma cidade precisa de quem a conte, de quem a organize na memória coletiva. E Sílvio fazia isso com inteligência rara, sensibilidade aguçada e compromisso absoluto com a verdade cultural do seu povo.
Hoje, Porto Velho continua produzindo cultura, como sempre produziu. O boi continua brincando, o samba continua ecoando, os artistas continuam criando. Mas falta alguém com aquele olhar de garimpeiro da memória, capaz de encontrar ouro histórico onde muitos viam apenas rotina.
O nosso Sílvio Santos, não aquele da TV, faz falta porque entendia que a história cultural de um povo não está apenas nos grandes eventos, mas nos pequenos acontecimentos que, somados, constroem identidade. Ele sabia disso. E por isso escrevia. E por isso permanece.
Porque homens inteligentes como Sílvio Macedo Santos não morrem por inteiro. Ficam nas canções, nos textos, nas lembranças e na história que ajudaram a salvar do esquecimento.
E Porto Velho, cidade de memória inquieta, ainda sente o barulho da catraca do jornalista poeta que tanta falta nos faz.
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OBS: O título da coluna “CULTURA E HISTÓRIA EM TRÊS TEMPOS” é uma homenagem ao jornalista Paulo Queiroz.



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