Publicada em 03/02/2026 às 09h33
O artigo publicado em 1º de fevereiro pelo senador Confúcio Moura, no qual rememora o medo do inferno e a educação religiosa severa vivida na infância, pode ser lido, hoje, como algo além de uma simples crônica autobiográfica. Embora trate de experiências distantes no tempo, o texto se alinha de maneira curiosa ao momento político atravessado pelo parlamentar, ainda que essa convergência possa ser meramente inconsciente ou fruto de coincidência narrativa.
Não há, no texto, qualquer referência direta à conjuntura atual. Ainda assim, a abordagem sobre culpa, punição e temor de consequências permanentes surge justamente quando o senador enfrenta o período mais sensível de sua carreira política. Essa simultaneidade permite leituras simbólicas, sem que se atribua intenção deliberada ao autor.
Confúcio Moura construiu uma trajetória marcada por êxitos sucessivos. Foi deputado federal, prefeito de Ariquemes, governador de Rondônia e, desde 2019, ocupa uma cadeira no Senado da República. Ao longo desse percurso, raramente precisou lidar com ambientes de forte polarização. Sua atuação sempre foi associada à moderação, ao discurso técnico e à cautela política, o que lhe permitiu transitar entre campos distintos sem se tornar alvo preferencial de confrontos ideológicos.
Esse cenário começou a mudar a partir do mandato no Senado. Textos críticos à Ditadura Militar, manifestações públicas de posicionamento ideológico e a condição de único integrante da bancada federal de Rondônia alinhado ao governo Lula o inseriram de forma mais explícita no debate político nacional. 2026, inclusive, seria o primeiro grande teste eleitoral após esse reposicionamento público.

''Já imaginou a eternidade dentro de um caldeirão de merda?'', questiona Confúcio Moura / Reprodução
Paralelamente, voltaram à tona críticas antigas, como a criação de 11 unidades de conservação durante seu governo estadual, decisão tomada sem consulta prévia à sociedade ou ao parlamento, posteriormente alvo de CPI na Assembleia Legislativa. Trata-se de um passivo político recorrente, que permanece presente no imaginário de parte do eleitorado e frequentemente reaparece em momentos de maior exposição.
O episódio mais recente, no entanto, concentra o foco do desgaste atual. Ao se manifestar favoravelmente à concessão da BR-364 e relativizar o impacto do pedágio, defendendo-o como instrumento de segurança viária e preservação de vidas, o senador passou a ser associado, de forma direta, a uma política pública impopular. Em menos de uma semana, foram três manifestações públicas sobre o tema, todas reiterando a defesa do modelo, ainda que reconhecendo a legitimidade das críticas ao valor das tarifas.
Na tentativa de contextualizar o processo, Confúcio atribuiu sua origem ao governo de Jair Bolsonaro, em 2019, quando Tarcísio de Freitas era ministro da Infraestrutura. Sustentou tratar-se de uma decisão de Estado, chancelada por órgãos técnicos e de controle. Essa explicação, contudo, pode ter produzido efeito ambíguo: ao buscar afastar a responsabilidade individual, reforçou a percepção de isolamento político no debate local.
Esse isolamento tornou-se ainda mais evidente quando a bancada federal de Rondônia, sem a participação do senador, obteve na Justiça Federal a suspensão da cobrança do pedágio. A decisão judicial apontou falhas técnicas, inconsistências metodológicas e descumprimentos contratuais, o que fragilizou, ao menos momentaneamente, a narrativa de regularidade institucional. Politicamente, abriu-se espaço para leituras segundo as quais Confúcio ficou sozinho na defesa de um modelo que acabava de ser interrompido por ordem judicial.
É nesse ponto que a crônica “Medo do inferno” pode ganhar uma camada adicional de interpretação. Ao recordar a infância marcada pelo controle moral e pelo temor permanente da punição, o senador escreveu: “A gente nem pecava – tinha um medo terrível do inferno. Já imaginou a eternidade dentro de um caldeirão de merda?”. O trecho, ainda que claramente inserido em um contexto pessoal e pretérito, se conecta simbolicamente com o ambiente político atual, no qual cada posicionamento gera reações intensas e consequências duradouras.
Pode ser apenas coincidência. Pode ser um reflexo inconsciente de um momento de pressão. Ou pode ser apenas uma crônica sem qualquer relação com os fatos contemporâneos. Ainda assim, o paralelismo se impõe como possibilidade interpretativa, sobretudo em um período em que o senador enfrenta críticas, isolamento e questionamentos públicos sobre seu futuro político.
Diante desse quadro, crescem nos bastidores especulações sobre uma eventual aposentadoria da vida pública. Não como anúncio formal, mas como leitura de um desgaste que se intensificou justamente quando Confúcio decidiu abandonar definitivamente a posição confortável do meio do caminho. Se haverá absolvição política ou prolongamento desse inferno astral, o tempo — e o eleitor — dirão.



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