Publicada em 05/02/2026 às 10h09
Os Estados Unidos e a Rússia, as maiores potências nucleares do mundo, estão agora sem limites de produção e posicionamento de ogivas atômicas, após o vencimento do tratado New START na quarta-feira (4). Essa nova realidade, inédita no cenário pós-Guerra Fria, vai acelerar a corrida nuclear global e joga o mundo no desconhecido, segundo especialistas ouvidos pelo g1.
Assinado em 2010, o New START era um acordo entre Washington e Moscou limitando a quantidade de ogivas nucleares que os países poderiam ter prontas para uso em seus arsenais — até 1.550, cada. O tratado também impunha um teto para o número e o uso de armas nucleares e regulamentava onde elas poderiam estar armazenadas. (Leia mais detalhes sobre o New START abaixo)
Considerado elemento vital para prevenir uma escalada nuclear pelo mundo, o New START era também o último tratado do tipo entre EUA e Rússia — os dois países já tiveram outros acordos nucleares, mas todos foram desfeitos.
O vencimento do tratado, para os especialistas ouvidos pelo g1, ocorre impulsionado pela ascensão da China como potência nuclear global e consolida o fim da lógica de não proliferação de armas nucleares que predominava no mundo desde o fim da Guerra Fria.
Nessa nova realidade, o descompasso declarado entre as maiores potências nucleares escancara uma corrida armamentista nuclear mundial que será encabeçada por EUA, Rússia e China em um contexto de desconfiança mútua no panorama geopolítico global e que deve causar uma proliferação de ogivas pelo mundo nos próximos meses, segundo os especialistas.
“O fim do New START remove o último freio institucional que ainda continha essa corrida armamentista e, com isso, escancara e acelera uma dinâmica de competição nuclear que já estava em curso. O New START era um pilar, e sua ausência muda o ambiente estratégico mundial”, afirmou ao g1 o professor de Relações Internacionais da UFF e pesquisador de Harvard Vitelio Brustolin.
Segundo Brustolin, o New START "administrava" a rivalidade entre EUA e Rússia e conferia um grau mínimo de confiabilidade entre as potências. Sem ele, cada lado precisará assumir o pior cenário para planejar suas forças militares e nucleares.
Mesmo assim, o Tratado de Proliferação Nuclear (TNP) já seria suficiente para evitar uma corrida nuclear, segundo Brustolin. O problema é que o TNP não é respeitado: a China, por exemplo, expande rapidamente seu arsenal à revelia dos termos do tratado. (Leia mais abaixo)
A China, inclusive, é o que fator que mudou a lógica e fez os EUA deixarem o New START "morrer", segundo os especialistas. O movimento de Washington indica que a Rússia já não importa mais tanto quanto antes e também não tanto quanto Pequim neste momento. Os EUA, inclusive, estão focados na contenção do país asiático, que nos últimos anos se colocou como superpotência mundial.
O presidente norte-americano, Donald Trump, defende que a China precisaria estar incluída em qualquer novo acordo de controle de armas nucleares. O presidente chinês Xi Jinping, por sua vez, alega que o país não precisaria ser incluído em um tratado do tipo porque EUA e Rússia já levam vantagem.
Com esse impasse, fica evidente a entrada do mundo em uma "3ª Era nuclear", com um aumento de arsenais sem limites em que nenhum líder mundial confia no outro, afirmou ao g1 Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais da ESPM e professor convidado da Unifa.



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