Se quiser sobreviver politicamente, Sérgio Gonçalves precisa mostrar que ainda tem sangue correndo nas veias e que não se resignou a um papel meramente protocolar até o fim do mandato. A permanência no debate público, ancorada apenas em entrevistas reativas e postagens esporádicas, tende a ser insuficiente num ambiente em que protagonismo se mede por capacidade de agenda, articulação e demonstração concreta de força política. Mais do que responder a cenários hipotéticos, o vice precisará construir sinais inequívocos de presença real no jogo, sob pena de ver sua trajetória ser empurrada para a condição de coadjuvante num processo sucessório que já avança com outros atores ocupando o espaço.
Publicada em 19/02/2026 às 11h22
A vida política do vice-governador Sérgio Gonçalves, do União Brasil, não anda nada boa desde que ele anunciou a chamada “live do fim do mundo”. O que surgiu como promessa de revelação, enfrentamento e reposicionamento acabou, no fim das contas, não passando de um “estalinho”. O episódio, longe de produzir a virada esperada, serviu para fritar ainda mais a já combalida relação com o governador de Rondônia, Coronel Marcos Rocha, hoje no PSD, e marcou o início de um processo contínuo de perda de espaços dentro do governo.
A cronologia desse desgaste começa a ganhar forma pública em 11 de julho de 2025, quando o Rondônia Dinâmica contou que Sérgio Gonçalves utilizou uma transmissão ao vivo para comentar sua exoneração da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico (Sedec/RO), negar conspiração contra o governador e reafirmar sua pré-candidatura ao governo.
Na ocasião, descreveu o momento como uma travessia difícil ao afirmar: “Essas pessoas literalmente pegaram na minha mão e vêm me ajudando a transpor essa tempestade”. Ao rebater críticas sobre a trajetória empresarial da família, registrou: “Empresas podem falir. Pessoas não”. No mesmo ato, trouxe o pai, José Gonçalves, que disse: “Sou um pai orgulhoso com as suas conquistas”. E reforçou seu projeto político ao declarar: “Eu reafirmo a minha pré-candidatura. Eu não posso ser um covarde de ter lutado tanto e desistir no meio do caminho”, concluindo com a frase: “Governar é construir pontes, não muros”.
O que se seguiu mostrou que a disputa não ficaria restrita ao plano simbólico. Sérgio perdeu todos os espaços na gestão estadual, incluindo vitrines e funções extras. A saída da Sedec — hoje ocupada por Lauro Fernandes da Silva Júnior — consolidou a perda de uma posição estratégica e simbolizou a ruptura política com o núcleo decisório do Palácio Rio Madeira.
O processo ganhou dimensão institucional no fim de 2025, quando, conforme editorial publicado em 3 de janeiro de 2026 também pelo Rondônia Dinâmica, a exoneração de 35 comissionados ligados ao vice foi interpretada como a formalização do rompimento entre ele e o governador, consolidando a leitura de neutralização política por meio da máquina administrativa.
No início de 2026, Marcos Rocha também reorganizou o próprio campo político. Em entrevista ao Resenha Política, publicada em 10 de fevereiro de 2026, afirmou que permanecerá no governo até o fim do mandato e negou candidatura ao Senado, dizendo: “Eu não sou um homem de blefe… eu não sou candidato ao Senado, apesar das pesquisas estarem me colocando à frente”. Ao tratar da reorganização partidária, lançou o aviso: “Quem não entrar no nosso barco depois vai se arrepender”. E, ao comentar a tensão com o vice, adotou tom público de encerramento do episódio: “Já virou a página… Agora eu simplesmente esqueci. O meu vice tem direito a ser candidato? Claro que tem.”
Sem a vitrine administrativa e com o titular decidido a permanecer até 2027, Sérgio Gonçalves tenta se manter vivo no jogo, mas de maneira inócua, concedendo entrevistas que giram em torno de si próprio, comentando cenários hipotéticos e respondendo perguntas sobre o que faria com o secretariado caso assumisse o poder. Ao mesmo tempo, passou a apostar no Instagram e em outras redes sociais como principais canais de comunicação com a população.
Nesses espaços, responde questionamentos em caixas de perguntas e aborda temas que pouco dialogam diretamente com a realidade administrativa de Rondônia, incluindo reflexões e comparações sobre fenômenos externos, como o caso citado por ele envolvendo o impacto de organizações criminosas sobre torcidas organizadas em Fortaleza, utilizado como exemplo de consequência social e mudança de comportamento. A estratégia, porém, reforça a percepção de que a presença política migrou do campo institucional para o campo discursivo, sem o mesmo peso de antes.
Enquanto isso, o tabuleiro partidário se move. Marcos Rocha já afirmou, por duas vezes, que não pretende concorrer, o que por si só já representa uma barreira significativa para os intentos do vice. Paralelamente, burburinhos indicam que o ex-prefeito Hildon Chaves é cotado para migrar para o União Brasil e se tornar nome à sucessão do governador. A presença de Júnior Gonçalves, irmão do vice e ex-chefe da Casa Civil, como presidente da sigla — ainda — não garante absolutamente nada, com 100% de certeza, na vida política do irmão.
A própria história recente da política rondoniense mostra como essas reconfigurações podem acontecer de forma abrupta. Jaime Bagattoli era presidente do PL em Rondônia em um dia; no outro, viu Marcos Rogério assumir protagonismo dentro do partido, deixando o pecuarista sem poder interno e obrigado a reconhecer a dificuldade de travar essas batalhas. O episódio funciona como referência concreta de que posições aparentemente consolidadas podem ser redesenhadas de forma rápida quando a correlação de forças muda.
Nesse ambiente, a trajetória de Sérgio Gonçalves passa a ser marcada por um contraste evidente entre intenção e resultado. A “live do fim do mundo”, que pretendia redefinir o jogo político, acabou sendo o ponto de partida de um período de retração institucional, com perda de cargos, redução de influência e dependência crescente das redes sociais como principal canal de presença pública.
A política segue aberta a reviravoltas, mas a linha temporal até aqui indica que o impacto anunciado não se traduziu em força real no tabuleiro, deixando o vice em posição de reconstrução enquanto o cenário de 2026 se reorganiza ao seu redor e novas articulações, como as construiídas em torno do ruído de Hildon no União Brasil, já passam a soprar no seu cangote.



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