RESENHA POLÍTICA
ROBSON OLIVEIRA
DESERTO
A privatização da CAERD terminou exatamente como alguns alertavam: em água. Só que não foi a água da universalização do saneamento. Foi a água fria jogada sobre um projeto de R$ 8,47 bilhões que não conseguiu atrair sequer uma empresa interessada. O certame foi declarado deserto depois que nenhum investidor apresentou proposta.
FRACASSO
Não é apenas um fracasso licitatório. É um retrato da falta de planejamento político de um governo que insistiu em empurrar goela abaixo uma concessão de 35 anos sem construir o consenso necessário em torno de um serviço que mexe diretamente com o bolso e a vida de todos os rondonienses.
TEIMOSIA
A única audiência pública realizada em Porto Velho já deveria ter servido como sinal amarelo. Não serviu. O governo preferiu acelerar o processo enquanto praticamente toda a classe política que disputa o Palácio Rio Madeira defendia que a decisão fosse deixada para o próximo governador, legitimado pelas urnas. Marcos Rocha fez ouvidos de mercador. Insistiu. Bateu o pé. E agora recebeu da realidade a resposta que a política vinha lhe dando há meses: ninguém apareceu.
PERGUNTA
Uma concessão dessa magnitude não pode ser tratada como propriedade particular de um governo em fim de mandato. São 35 anos de contrato, bilhões em investimentos e um serviço essencial. E há uma pergunta elementar que jamais poderia ficar em segundo plano: quanto o cidadão pagará pela água e pelo esgoto depois que a torneira da iniciativa privada for aberta?
MODELAGEM
O problema não está em discutir participação privada no saneamento. O problema é fazer isso sem a transparência, a segurança regulatória e a pactuação política necessárias. Uma ação popular, inclusive, questionou aspectos do edital relacionados à tarifa social, descontos e critérios de outorga. A CAERD é uma empresa familiarizada com a ineficiência, pesada, endividada e incapaz de entregar o saneamento que Rondônia merece. Isso ninguém precisa dourar. Mas a incompetência da estatal não transforma automaticamente qualquer modelo de concessão em bom negócio para o Estado.
CONFUSÃO
O governo confundiu urgência com atropelo. Quis resolver em meses aquilo que exigia planejamento, diálogo e legitimidade. E acabou produzindo um daqueles raros espetáculos administrativos em que ninguém aparece para comprar aquilo que o vendedor jurava ser irresistível.
MÁGOAS
Agora, diante do fracasso, o governo fala em avaliar condições de mercado e aspectos técnicos e financeiros. É exatamente o que deveria ter feito antes. O episódio revela também o ocaso político de uma administração que, juridicamente, ainda permanece de pé, mas politicamente já parece caminhar sobre muletas. Em vez de construir pontes com aliados e adversários, o governador preferiu transformar divergências em mágoas públicas e isolamento em método. Na política, isso costuma cobrar juros.
PRESSA
Quem se isola voluntariamente termina descobrindo, quando precisa de apoio, que isolamento não é companhia. E o fracasso da CAERD deixa uma lição incômoda para o próximo governo: saneamento não pode ser tratado como herança de ocasião nem como negócio de balcão. Água e esgoto são patrimônio público, e qualquer concessão precisa colocar os interesses de Rondônia acima da pressa de um governo que está saindo.
ESTUPIDEZ
A CAERD pode até estar agonizando. Mas Rondônia não pode ser obrigada a beber a conta de um erro cometido às pressas. Desta vez, felizmente, não houve comprador. Apesar da insistência estúpida de quem governa ao ouvir auxiliares incompetentes. Rondônia carece de políticos menos vaidosos e menos arrogantes.
DEBATE
O debate da TV Norte, afiliada ao SBT, terminou sendo uma espécie de debate de portas abertas: os principais convidados simplesmente não apareceram. Hildon Chaves, Marcos Rogério, Adailton Fúria e Expedito Netto desistiram e deixaram Samuel Costa e Pedro Abib falando praticamente para as paredes. Para uma eleição que se aproxima da hora da verdade, não é exatamente uma demonstração de apetite pelo confronto de ideias. O problema é que ideias e propostas não estão na pauta da maioria dos debatedores. Isto afugenta quem é sério.
EXPOSTO
Debate não é obrigação moral de candidato, mas é uma das poucas ocasiões em que o eleitor pode colocar propostas lado a lado, ouvir respostas sem a edição do marqueteiro e observar como cada postulante reage quando a pergunta deixa de ser previamente combinada.
PRUDÊNCIA
É evidente que campanha eleitoral também é estratégia. O candidato calcula ganhos e perdas, exposição e risco. Quem está na dianteira sabe que um debate pode ser palco de consagração, mas também pode transformar uma pequena hesitação em manchete e uma frase mal colocada em pesadelo de campanha. Na política, às vezes, o silêncio é tratado como prudência.
MUNIÇÃO
Nacionalmente, candidatos competitivos também têm evitado determinados debates, sobretudo quando avaliam que o confronto pode servir mais aos adversários do que a eles. Nos estados, o fenômeno se repete: os chamados candidatos de ponta evitam, quando podem, o franco-atirador que entra no estúdio disposto a transformar cada pergunta em munição. E talvez Rondônia tenha produzido uma razão adicional para essa cautela.
CONTAMINAÇÃO
No debate da SIC TV, considerado até aqui o mais concorrido da eleição, os seis candidatos estiveram presentes, mas Samuel Costa e Expedito Netto protagonizaram os momentos mais ásperos, com acusações e confrontos pessoais que acabaram contaminando boa parte do encontro. O debate de propostas foi, em vários momentos, substituído por uma troca de golpes verbais.
PARADOXO
O episódio pode ter reforçado entre algumas campanhas a velha máxima de que, em determinadas circunstâncias, é melhor não entrar na arena do que oferecer ao adversário uma cadeira, um microfone e alguns minutos para bater. Mas aí aparece o paradoxo.
CACETE
Todos dizem possuir propostas. Todos prometem transformar Rondônia. Todos falam em saúde, educação, infraestrutura, segurança, desenvolvimento e equilíbrio fiscal. Quando chega a hora de colocar essas ideias diante dos adversários, porém, alguns preferem a propaganda cuidadosamente iluminada ao ambiente incômodo do confronto. E quando o debate descamba para a baixaria, o eleitor perde duas vezes: perde a oportunidade de conhecer melhor os candidatos e perde a oportunidade de comparar projetos. O curioso é que o candidato que mais utiliza da baixaria é quem mais critica pela ausência dos concorrentes. Cinismo em alta voltagem.
BOTIQUIM
Os organizadores também precisam fazer sua parte. Debate não pode ser ringue de vale-tudo. Regras claras, advertência imediata e intervenção firme do mediador são indispensáveis quando a discussão abandona a política e desembarca no insulto. O direito ao contraditório não pode ser confundido com licença para a agressão. A ironia é que os candidatos reclamam da política rasteira, mas às vezes ajudam a fabricá-la. Falam em alto nível e, diante do primeiro confronto, transformam o estúdio em botequim de esquina.
BARULHO
Lamentamos a ausência dos candidatos, porque o confronto de ideias é indispensável à democracia. Mas um debate transformado em vale-tudo também não interessa a ninguém. Em determinadas circunstâncias, até o cancelamento de uma disputa pode ser menos nocivo do que obrigar o eleitor a assistir a uma rinha de brigas fratricidas, na qual as propostas desaparecem sob o barulho dos insultos. Daí é compreensivo que os candidatos de ponta evitarem de se confrontar com quem olha para cima querendo tão somente puxar o pé para baixo de quem está a sua frente.
CIRCO
Pode-se criticar a ausência, mas é possível compreender a estratégia. Depois do espetáculo de pancadaria verbal do último debate, evitar uma nova arena de confronto insano pode ser, para alguns candidatos, menos uma fuga do eleitor e mais uma tentativa de não transformar a campanha em circo. Porque promessa todo candidato faz. Difícil é sustentá-la quando o outro candidato está sentado a dois metros de distância. Além de poupar quem assiste a cenas degradantes. O SBT não tem culpa, fez sua parte para democracia. Os debatedores mais afoitos e mais estridentes são os culpados. O resto é lorota.


Comentários
Seja o primeiro a comentar!