PORTO VELHO, RO - A polarização política no Brasil, a ausência de grandes lideranças nacionais e o clima crescente de radicalização no debate público dominaram a entrevista concedida pelo advogado Orestes Muniz ao podcast Resenha Política, apresentado por Robson Oliveira em parceria exclusiva com o Rondônia Dinâmica. Durante a conversa, o ex-vice-governador de Rondônia, ex-deputado federal e ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil seccional Rondônia afirmou que o país atravessa um momento de escassez de figuras políticas capazes de conduzir o debate nacional com credibilidade e respeito institucional.
Muniz avaliou que a atual conjuntura política brasileira se caracteriza por confrontos que deixaram de ser apenas ideológicos e passaram a incorporar ataques pessoais e disputas de reputação. Segundo ele, o país vive um ambiente muito diferente daquele observado em décadas anteriores, quando, em sua avaliação, havia lideranças políticas com maior densidade intelectual e reconhecimento público.
Ao comparar o cenário atual com a política brasileira da década de 1980, o advogado citou nomes de dirigentes que, segundo ele, simbolizavam um padrão mais elevado de liderança. “Em 1980, 81, 82, na década de 80, você tinha muitas lideranças políticas altamente respeitadas. Você tinha o Ulisses Guimarães na oposição, você tinha o Tancredo Neves na oposição, você tinha o Paulo Brossard, professor universitário, chegou a ministro do Supremo Tribunal Federal, então você tinha o Franco Montoro, governador de São Paulo, José Richa no Paraná, Marcos Freire em Pernambuco”, declarou.
Ele acrescentou que, naquele período, também havia lideranças relevantes no campo político ligado ao governo da época. “Mas na situação também, na chamada Arena Aliança Renovadora Nacional, que era o partido do governo, também você tinha muitas lideranças importantes, José Sarney, professor, escritor, um grande imortal da Academia Brasileira de Letras. Marco Maciel também imortal”, afirmou.
Muniz sustentou que o Brasil perdeu parte desse padrão de liderança e que isso contribuiu para o ambiente atual de confrontos mais agressivos. Para ele, a política contemporânea passou a ser marcada por embates que extrapolam a divergência de ideias e atingem o campo pessoal.
“Hoje ainda não surgiram as grandes lideranças de grau elevado de respeitabilidade. E isso nos leva a um confronto não mais somente de ideias, mas nos leva também a um confronto, muitas vezes, de determinadas palavras ofensivas, de coisas que diminuem o debate político. Eles não acrescentam, eles não trazem novidade em termos de programa, em termos de ideia, em termos de filosofia”, afirmou.
Durante a entrevista, o advogado também abordou o cenário eleitoral projetado para 2026 e afirmou que o processo poderá funcionar como um ponto de inflexão na política brasileira. Segundo ele, tanto a esquerda quanto a direita possuem condições competitivas no cenário nacional, o que pode provocar uma revisão estratégica em ambos os campos políticos.
“Essas eleições talvez sejam divisores de águas, porque essas eleições poderão dar um resultado que nenhum dos dois lados gostaria que tivesse. Por exemplo, Lula deve ser candidato de um lado. Do outro lado, temos cinco candidatos. E, se der Lula, por exemplo, a direita vai analisar onde ela errou. Se der a direita, Lula e a esquerda vão analisar onde ela errou”, declarou.
Na avaliação de Muniz, apesar da disputa acirrada, nenhum dos campos políticos apresenta atualmente uma liderança com perfil de estadista. Para ele, a ausência desse tipo de figura contribui para o ambiente de polarização e dificulta a construção de consensos nacionais.
“O que está faltando, no meu modo de entender, é exatamente a pregação de um estadista. Até agora eu não vi ninguém pregar como se fosse um estadista, aquele que defende absolutamente o interesse público, mesmo que aquilo traga determinados pontos negativos para o seu partido e para a sua pessoa”, afirmou.
O advogado também comentou a influência da religião no debate público e declarou acreditar que a atuação de comunidades religiosas pode ter impacto indireto no cenário político nacional. Segundo ele, grupos cristãos vêm realizando orações pelo país e esse movimento, em sua interpretação, pode influenciar comportamentos sociais e políticos.
“Eu acredito muito nisso porque os cristãos e principalmente as igrejas evangélicas estão desenvolvendo um trabalho de muita oração pelo Brasil, para que Deus abençoe a nação brasileira, para que Deus passe a dirigir os destinos da nação brasileira”, afirmou.
Muniz também mencionou passagens bíblicas para ilustrar seu raciocínio sobre a influência espiritual na sociedade. Ao comentar o tema, afirmou que a oração pode produzir efeitos tanto no comportamento individual quanto na percepção coletiva da vida pública.
“Uma pessoa que ora tem um tipo de comportamento e aquele comportamento passa a influenciar outros comportamentos. Essa é uma maneira de você ver a oração. Para os crentes, como é o meu caso, além desse, ele tem um efeito muito maior, que é o efeito da misericórdia de Deus sobre o povo”, declarou.
O advogado também respondeu a questionamentos sobre a relação entre religião e política e afirmou que, em sua visão, as instituições religiosas não deveriam assumir diretamente o poder político, mas que valores considerados cristãos poderiam orientar a atuação de gestores públicos.
“A religião tem que ficar longe da política. O político tem que ser político, o pastor tem que ser pastor, tem que cuidar das ovelhas. A nossa tese é de pessoas que assumem o poder obedecer a princípios que estão na Bíblia Sagrada, os princípios cristãos”, disse.
Ao longo da conversa, Muniz também abordou o ambiente de intolerância no debate político contemporâneo e afirmou que, segundo sua percepção, muitas pessoas evitam expor opiniões por receio de serem rotuladas ou atacadas.
“O Brasil, nesse momento agora, nós temos até dificuldade, às vezes, muitas pessoas têm dificuldade de discutir abertamente as suas ideias, porque senão você na hora é carimbado, você na hora é taxado”, afirmou.
Ele também comentou que a rotulação ideológica prejudica o debate democrático e limita a discussão sobre políticas públicas. “Se você está em uma mesa de bar, em um lugar qualquer, e fala alguma coisa da direita, você é um bolsonarista. Se fala algo da esquerda, você é outra coisa. Isso prejudica o debate”, declarou.
No trecho final da entrevista, o advogado voltou a tratar de temas religiosos ao responder perguntas sobre valores cristãos e comportamento social. Ao mencionar passagens bíblicas, citou o episódio em que Jesus impede o apedrejamento de uma mulher acusada de adultério para exemplificar a ideia de misericórdia presente no cristianismo.
“A Bíblia nos ensina o seguinte: tem coisas que são pecados. Jesus nos ensinou a amar o pecador, mas não amar o pecado”, afirmou.
A entrevista foi conduzida pelo jornalista Robson Oliveira, que apresentou o programa destacando a trajetória de Muniz na advocacia e na política de Rondônia. Ao final da conversa, o apresentador indicou a possibilidade de um novo encontro para discutir temas ligados ao Supremo Tribunal Federal e ao debate jurídico nacional. O programa Resenha Política é exibido em diversas plataformas digitais e também na programação da Rádio Jovem Pan e da TV Jovem Pan News, com reprises na TV REMA.
DEZ FRASES DE ORESTES MUNIZ DURANTE O RESENHA POLÍTICA
01) “O Brasil vive um momento agora de ausência, no meu modo de ver, de grandes lideranças políticas.”
Ele abre a análise dizendo que a política nacional perdeu figuras com peso e credibilidade e usa isso para explicar a tensão atual.
02) “Hoje, ainda não surgiram as grandes lideranças de grau elevado de respeitabilidade.”
Ele compara o presente com décadas anteriores e afirma que o país não voltou a produzir lideranças com o mesmo nível de reputação pública.
03) “Nós perdemos um pouco isso.”
Ao falar do passado, ele diz que a “respeitabilidade” dos dois lados do espectro político diminuiu e que o debate ficou menor.
04) “Isso nos leva a um confronto não mais somente de ideias, mas nos leva também a um confronto, muitas vezes, de determinadas palavras ofensivas, de coisas que diminuem o debate político.”
Ele descreve a polarização como algo que ultrapassa divergência programática e vira agressão, ataques e rebaixamento do debate.
05) “Essas eleições, as eleições de 2026, eu tenho a impressão que elas serão um divisor de águas para uma nova realidade brasileira.”
Ele aposta que o resultado de 2026 vai obrigar esquerda e direita a reverem estratégias e padrões de disputa.
06) “Essas eleições poderão dar um resultado que nenhum dos dois lados gostaria que tivesse.”
Ele sugere que, independentemente de quem vença, o choque pode provocar reavaliação interna nos campos políticos.
07) “Não adianta a pessoa dizer que o Lula não tem chance, porque no meu modo de ver, ele tem uma grande chance.”
Ele contraria leituras de vitória fácil de um lado e insiste que Lula segue competitivo no tabuleiro eleitoral.
08) “O maior líder da direita é o Bolsonaro. Inquestionavelmente é o maior líder da direita.”
Ao discutir o vácuo de liderança, ele crava Bolsonaro como referência central do campo conservador, mesmo com impedimento eleitoral citado na conversa.
09) “O que está faltando, no meu modo de entender, é exatamente a pregação de um estadista.”
Ele afirma que nenhum polo tem apresentado alguém com postura de interesse público acima de partido, corporações e cálculo eleitoral.
10) “A religião tem que ficar longe da política.”
Ao ser provocado sobre fé e poder, ele diz que igreja não deve assumir governo e delimita função de pastor e de político, antes de defender que governantes sigam princípios cristãos.



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