PORTO VELHO, RO - O assalto a uma loja de motocicletas na avenida Carlos Gomes, no centro de Porto Velho, produziu imagens incômodas não apenas pelo prejuízo causado ao empresário. A sequência chama atenção pela naturalidade da ação. Um grupo chega ao estabelecimento, invade o imóvel, circula pelo interior, retira motocicletas e deixa o local. A cena transmite uma impressão especialmente preocupante: naquele episódio, a criminalidade parece ter perdido o receio de encontrar o Estado no caminho.
Como eternizou Galvão Bueno durante o 7 a 1 sofrido pelo Brasil diante da Alemanha, na Copa do Mundo de 2014: “Virou passeio”. Guardadas todas as proporções, a expressão traduz a sensação provocada pelas imagens. O problema não está somente no crime cometido, mas na desenvoltura com que ele é executado.
A repercussão nas redes sociais seguiu a mesma linha. “Cadê a segurança pública da cidade?”, questionou um internauta. Outro escreveu: “Meu Deus a criminalidade tá vencendo e os nossos governantes não estão fazendo nada”. Um terceiro direcionou a indignação para quem trabalha e vê o patrimônio exposto: “Fico pensando como esta a mente do empresário brasileiro que ja passa por momentos tão difíceis e ver a falta de segurança, seu patrimônio sendo furtado e sem proteção do Estado ! Lamentável”.
É dentro desse ambiente que Adaílton Fúria, do PSD, tenta construir sua candidatura ao Governo de Rondônia.
O ex-prefeito de Cacoal carrega uma circunstância política que nenhum esforço de diferenciação consegue apagar completamente: entre os concorrentes, é justamente aquele que recebe o apoio da atual administração estadual.
Fúria aceita o bônus dessa proximidade com o Palácio Rio Madeira. Mesmo com burburinhos periódicos sobre afastamentos, incômodos e possíveis rupturas, a fotografia política permanece evidente: sua candidatura é a escolhida pelo grupo atualmente instalado no Executivo estadual.
E apoio político não pode funcionar pela metade.
Quem recebe o bônus também precisa suportar o ônus. Esse ônus não significa responsabilizar Fúria pessoalmente por tudo o que ocorreu durante os dois mandatos de Marcos Rocha. Significa enfrentar o desgaste natural de qualquer administração depois de oito anos, responder às críticas feitas pela sociedade e pela imprensa e explicar por que problemas que atravessaram esse período seriam enfrentados de maneira diferente em uma eventual gestão seguinte.
Na segurança pública, essa cobrança se torna ainda mais pesada.
Fúria tenta construir identidade própria. A campanha apresenta uma postura que poderia ser chamada de “furiocentrista”: as decisões gravitam em torno do candidato, de suas escolhas e de sua maneira particular de conduzir o projeto. A demissão do marqueteiro foi um exemplo dessa tentativa de demonstrar que as deliberações finais pertencem a ele.
Essa postura ajuda a criar personalidade eleitoral.
Não muda, porém, a realidade política.
O querer não substitui a realidade. Fúria continua sendo o candidato apoiado pela atual gestão. Se essa proximidade funciona como ativo nos bastidores, onde alianças, estrutura e articulação política têm peso relevante sem necessariamente carregar a mesma exposição pública do desgaste administrativo, ela não pode desaparecer quando surgem as contas políticas acumuladas durante oito anos.
Nesse sentido, Fúria possui uma obrigação maior do que seus adversários ao explicar como pretende enfrentar justamente os setores mais fragilizados deixados pelo governo de seu principal aliado.
A segurança pública é um deles.
O próprio plano de governo reconhece a dimensão do problema. No capítulo “Rondônia Segura e de Paz”, o documento aponta déficit de efetivo nas instituições de segurança, principalmente Polícia Militar, Polícia Civil e POLITEC. Também registra 420 mortes violentas intencionais em 2024, taxa de 24,1 por 100 mil habitantes, e informa que o sistema prisional encerrou 2025 com 8.256 pessoas para 7.069 vagas, ocupação de 116,8%. O programa relaciona a deficiência de pessoal a dificuldades na prevenção, investigação, atendimento à população e produção de provas.
O diagnóstico é claro.
A resposta, nem tanto.
Fúria propõe um Plano Estadual de Recomposição dos Efetivos 2027–2030. O programa prevê concursos escalonados para Polícia Militar, Polícia Civil, POLITEC e Corpo de Bombeiros, considerando aposentadorias, vacâncias, exonerações, crescimento populacional e capacidade financeira do Estado. Também promete reposição permanente e revisão da distribuição dos profissionais pelo território rondoniense.
Mas o plano não informa quantos policiais pretende contratar.
Não estabelece quantos novos militares deverão estar disponíveis no primeiro ano. Não dimensiona em números a necessidade de policiais civis ou peritos. Não fixa uma meta objetiva para reduzir o déficit que o próprio documento reconhece. Tampouco apresenta quanto custará essa recomposição.
É uma lacuna relevante porque o problema encontrado nas ruas é essencialmente operacional.
O assalto da Carlos Gomes não reclama apenas de boas diretrizes. Ele coloca sobre a mesa presença policial, velocidade de resposta e capacidade de impedir que uma ação criminosa seja executada com tranquilidade suficiente para que motocicletas sejam retiradas de dentro de uma loja.
Outra proposta é a Patrulha Policial Comunitária “Os Laranjinhas”. O programa pretende colocar policiais militares recém-formados em presença ostensiva e permanente nas ruas, praças, bairros, entorno de escolas e pontos de maior circulação. Os integrantes viriam das novas turmas previstas no plano de recomposição e seriam direcionados prioritariamente a regiões com índices mais elevados de criminalidade. O próprio plano informa que a concepção aproveitará experiências semelhantes implantadas em outros estados.
A própria nomenclatura “Laranjinhas” já é empregada em Pernambuco para policiais militares recém-egressos dos cursos de formação utilizados no reforço do policiamento ostensivo. Na gestão de Raquel Lyra, correligionária de Fúria no PSD e candidata à reeleição, mais de 4,4 mil desses profissionais chegaram a atuar no Estado. Fúria transporta para Rondônia uma fórmula semelhante à adotada pela governadora pernambucana.
Mas deixa uma questão essencial sem resposta: qual será a escala?
Quantos “Laranjinhas” serão formados em Rondônia? Quantas equipes atuarão em Porto Velho? Quantos policiais estarão disponíveis durante a noite e a madrugada? Quais bairros serão atendidos? Qual será o custo da iniciativa? Quanto tempo será necessário para que a promessa de presença permanente seja percebida na rua?
Novamente, o desenho existe.
A escala não.
O videomonitoramento segue caminho semelhante. O plano promete integrar Polícia Militar, Polícia Civil, POLITEC, órgãos de trânsito e outras forças, instalar câmeras em pontos estratégicos e utilizar, quando tecnicamente possível, leitura automatizada de placas para identificar veículos envolvidos em ocorrências e emitir alertas em tempo real. O documento inclui crimes patrimoniais e furtos de veículos entre os alvos dessa política de inteligência.
Para um caso como o da loja de motocicletas, a proposta conversa diretamente com o problema.
Mas faltam números novamente.
Não há quantidade definida de câmeras, meta de cobertura para Porto Velho, valor estimado de investimento ou prazo para que a estrutura alcance tamanho suficiente para alterar concretamente a capacidade de resposta policial.
Até a programação dos primeiros 100 dias revela essa característica. Fúria promete concluir o levantamento do déficit de efetivo, publicar o calendário escalonado de concursos, instalar mesa permanente de diálogo sobre as carreiras, iniciar patrulhamento comunitário em municípios-piloto e apresentar o projeto do Programa Estadual de Videomonitoramento Integrado.
Há planejamento.
O problema é que a segurança pública chegou a um ponto em que planejamento precisa vir acompanhado de dimensão, prazo e urgência.
Esse talvez seja o maior desafio político de Fúria: superar a tarja do continuísmo justamente em uma das áreas nas quais o governo de seu principal aliado chega ao fim de oito anos sob forte cobrança social.
A campanha pode assumir uma pegada furiocentrista. O candidato pode trocar estrategistas, contrariar auxiliares, centralizar decisões e insistir que uma eventual gestão terá sua própria identidade.
Nada disso muda de onde vem o apoio político.
E apoio gera responsabilidade.
Entre todos os candidatos, Fúria é justamente quem precisa explicar com maior precisão por que uma eventual continuidade do grupo político não representará continuidade do problema.
Essa cobrança não é uma tentativa de transferir para o candidato os atos do governador. É consequência da própria escolha política feita por ele. Não é possível receber a estrutura, a articulação e o respaldo do grupo governista e, ao mesmo tempo, tratar a herança administrativa como se pertencesse a uma história da qual a candidatura não participa.
O plano mostra caminhos.
Ainda não mostra o tamanho da marcha.
Quando criminosos entram em uma loja no centro de Porto Velho, retiram motocicletas e deixam o local aparentando pouca preocupação com a chegada do poder público, respostas genéricas deixam de ser suficientes.
É necessário dizer quantos policiais, quantas equipes, quantas câmeras, quanto dinheiro e em quanto tempo.
Fúria quer convencer o eleitor de que será capaz de carregar o bônus do apoio sem reproduzir o ônus da gestão.
Na segurança pública, seu próprio plano ainda não demonstra com clareza como fará isso.


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