PORTO VELHO, RO - A Caminhada Esperança nasceu de uma justificativa política compreensível. Em um estado no qual o campo conservador acumulava ampla vantagem eleitoral, a reunião de partidos, movimentos sociais, sindicatos e lideranças alinhadas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentava-se como uma tentativa de reduzir a dispersão, organizar um programa comum e construir uma alternativa competitiva para as eleições de 2026.
O movimento foi lançado em 30 de maio de 2025, na sede social do Sindicato dos Servidores Públicos Federais em Rondônia, em Porto Velho. A articulação reuniu o MDB e partidos da esquerda e da centro-esquerda, entre eles PT, PDT, PSB, PSOL, PV e Rede, além de incorporar outras siglas ao longo dos encontros regionais. Desde a origem, apresentou-se como uma frente ampla, formada por legendas com trajetórias e interesses distintos, mas unidas pelo propósito de enfrentar o predomínio conservador no estado.
A expressão “campo progressista”, nesse contexto, precisa ser compreendida de maneira abrangente. PT, PCdoB e PSOL pertencem claramente à esquerda partidária. PV, Rede, PSB e PDT ocupam posições progressistas ou de centro-esquerda. O MDB não é uma legenda de esquerda, mas participava da articulação principalmente por meio de Confúcio Moura, que se declara de centro-esquerda e mantém proximidade política e institucional com o governo Lula.
Essa diversidade era, simultaneamente, a principal força e a fragilidade de origem da Caminhada. O movimento pretendia promover mobilização social, formação política, elaboração programática, combate à desinformação e negociação eleitoral. Reunia partidos com estruturas, histórias e prioridades diferentes, mas avançava sem um mecanismo capaz de transformar essa pluralidade em decisões obrigatórias para todos.
A Caminhada não estabeleceu publicamente um método para a escolha das candidaturas. Não havia regras conhecidas para a realização de prévias, uso de pesquisas, votação entre as legendas ou retirada dos nomes derrotados numa eventual disputa interna. Também não foi definida previamente a distribuição das posições de governador, vice-governador e das duas vagas ao Senado. O movimento possuía lideranças e um calendário de mobilizações, mas cada partido continuava livre para conduzir a própria estratégia eleitoral.
Durante 2025, essa fragilidade permaneceu encoberta pela capacidade de reunir pessoas e produzir discursos convergentes. A iniciativa realizou encontros em diferentes regiões de Rondônia e defendeu pautas como democracia, educação pública, fortalecimento do Sistema Único de Saúde, sustentabilidade, inclusão social e aproveitamento dos investimentos federais no estado.
Enquanto a unidade significava dividir o mesmo palco e defender princípios gerais, as diferenças puderam ser administradas. O problema apareceu quando a construção de uma chapa passou a exigir renúncias concretas.
Confúcio Moura ocupava posição central nesse processo. Ex-prefeito de Ariquemes, ex-deputado federal, ex-governador por dois mandatos e senador desde 2019, reunia experiência administrativa, presença no interior, interlocução com prefeitos e uma relação política funcional com o governo Lula. Em parte de 2025, seu nome circulou como possibilidade para o Governo de Rondônia. Em outros momentos, ganhou força a expectativa de que disputaria a reeleição ao Senado.
Acir Gurgacz, do PDT, também aparecia entre os principais articuladores. Em novembro de 2025, a coordenação da Caminhada anunciou Confúcio e Acir como prioridades para conduzir as discussões sobre Governo e Senado. A definição, porém, não estabelecia qual deles disputaria cada cargo nem explicava como seriam acomodadas as demais pretensões que surgiam dentro do grupo.
O mesmo anúncio previa para março de 2026 uma plenária estadual destinada a definir a chapa e apresentar um plano de desenvolvimento sustentável e inclusivo. O mês chegou ao fim sem a divulgação de uma candidatura unificada, de um método definitivo para resolver as divergências ou da versão final do programa anunciado.
Antes mesmo desse prazo, a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, já havia iniciado seu próprio movimento. Em janeiro de 2026, Expedito Netto filiou-se ao PT e teve sua pré-candidatura ao Governo aprovada. A federação continuava participando da articulação progressista, mas passava a negociar a partir de uma candidatura previamente estabelecida.
A decisão possuía uma lógica partidária. O PT precisava oferecer um palanque estadual à campanha de Lula, fortalecer suas candidaturas proporcionais e preservar sua identidade em um estado eleitoralmente adverso. Para a Caminhada, entretanto, o lançamento de Expedito antes da definição coletiva alterou a natureza da discussão. O que deveria ser uma escolha entre alternativas passou a ser uma negociação entre projetos já colocados em marcha.
A partir daquele momento, o movimento deixou de filtrar candidaturas e passou a acumulá-las. Aires Mota, do PV, apresentou-se para o Senado. O PT confirmou Expedito Netto ao Governo e Luciana Oliveira para uma das vagas senatoriais. Samuel Costa e Neidinha Suruí ingressaram no PSB, que estruturou um projeto próprio. O PSOL lançou Luiz Carlos Teodoro ao Governo. O MDB apresentou Pedro Abib para o Palácio Rio Madeira. O PDT manteve Acir Gurgacz como opção para o Senado.
Nem todas essas decisões podem ser reduzidas a vaidade ou ambição pessoal. Cada partido possuía razões para buscar visibilidade, fortalecer sua estrutura e impedir que sua identidade desaparecesse dentro de uma frente conduzida por outra legenda. O resultado coletivo, contudo, tornou-se incompatível com a promessa de concentração de forças. Quanto mais cada sigla protegia seu espaço, menos capacidade restava à Caminhada para coordenar o conjunto.
A composição entre Expedito Netto e Luiz Carlos Teodoro demonstrou que ainda havia espaço para acordos. O PSOL retirou sua candidatura ao Governo e recebeu a posição de vice na chapa encabeçada pelo PT. Foi uma das poucas ocasiões em que uma pretensão majoritária foi efetivamente abandonada em favor de uma aliança mais ampla.
O mesmo não ocorreu entre a Federação Brasil da Esperança, o MDB, o PDT e o PSB. Pedro Abib permaneceu como candidato do MDB ao Governo. Expedito Netto seguiu como candidato do PT e de seus aliados. Samuel Costa manteve a candidatura do PSB. Acir Gurgacz foi confirmado pelo PDT para o Senado, apesar de o Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia ter reconhecido sua inelegibilidade até novembro de 2030, com possibilidade de recurso ao Tribunal Superior Eleitoral.
As duas vagas ao Senado, que poderiam facilitar uma composição, ampliaram ainda mais as disputas. Confúcio e Acir eram tratados inicialmente como nomes prioritários, mas PT, PV e PSB também passaram a reivindicar representação própria. Não surgiu um consenso sobre qual critério deveria prevalecer: intenção de voto, identidade partidária, proximidade com Lula, representação feminina, diversidade regional, trajetória política ou fidelidade programática.
A sequência envolvendo Luciana Oliveira expôs o grau de instabilidade das negociações. Em 22 de julho, a pré-candidatura petista ao Senado foi retirada sob a justificativa de facilitar alianças e priorizar o projeto nacional de reeleição de Lula. Três dias depois, ela voltou a ser homologada pela Federação Brasil da Esperança, ao lado de Aires Mota. O gesto que parecia abrir espaço para uma composição foi revertido antes que o acordo mais amplo se concretizasse.
Em 25 de julho, as convenções transformaram a fragmentação em decisões formais. A Federação Brasil da Esperança e a Federação PSOL-Rede confirmaram Expedito Netto ao Governo, Luiz Carlos Teodoro à vice e Luciana Oliveira e Aires Mota ao Senado. O PSB já havia referendado Samuel Costa para o Governo e apresentado seu próprio projeto para a disputa senatorial. O PDT homologou Acir Gurgacz. O MDB, em sua convenção, confirmou Pedro Abib para governador e Confúcio Moura para a reeleição ao Senado.
A homologação de Confúcio foi uma decisão do MDB, e não da Caminhada Esperança. Naquela altura, o movimento já não possuía uma chapa única nem funcionava como instância capaz de coordenar as convenções de seus integrantes. O senador aceitou disputar dentro de uma composição partidária que mantinha Pedro Abib ao Governo e não contava com o apoio formal da federação liderada pelo PT para o Senado.
Seis dias depois, em 31 de julho, última sexta-feira, Confúcio anunciou a retirada de sua candidatura. Na nota dirigida à população de Rondônia, afirmou que “os acontecimentos políticos e partidários ocorridos nos últimos dias modificaram profundamente as condições sobre as quais essa candidatura havia sido construída”. Também informou que permaneceria no exercício do mandato até o encerramento da legislatura.
Confúcio não identificou quais acontecimentos determinaram sua retirada. Não apontou partidos que teriam descumprido acordos, não revelou quais condições deixaram de ser atendidas e não acusou Pedro Abib, Expedito Netto, Luciana Oliveira, Aires Mota, Acir Gurgacz ou qualquer direção partidária de traição.
A explicação oferecida pelo senador foi genérica, mas a sequência dos acontecimentos ajuda a dimensionar o ambiente no qual a decisão foi tomada. As principais legendas haviam escolhido caminhos separados, o MDB mantivera candidatura própria ao Governo e a federação lulista ocupara as duas vagas de sua chapa ao Senado.
A retirada ocorreu quando a fragmentação já estava formalizada, mas Confúcio não atribuiu sua decisão exclusivamente a um desses episódios. Qualquer versão que identifique uma causa única ultrapassa o conteúdo da nota e entra no terreno das interpretações políticas e das informações de bastidor.
O comunicado também não mencionou falta de recursos, ausência de financiamento partidário, problemas em prestação de contas ou irregularidades financeiras. Essas hipóteses circularam nos bastidores, mas permaneceram sem confirmação pública por parte de Confúcio ou do MDB.
A desistência pode ser interpretada como um gesto de coerência de quem decidiu não disputar sob condições diferentes das originalmente construídas. Também pode ser vista como reconhecimento de fracasso político por parte de uma liderança que participou da criação da frente, presidiu a convenção do próprio partido, aceitou a homologação e abandonou a disputa menos de uma semana depois.
As duas leituras partem dos mesmos atos públicos. De um lado, Confúcio recusou-se a seguir numa disputa sem a aliança que poderia ampliar suas chances. De outro, deixou a candidatura depois de não conseguir transformar sua centralidade institucional em comando sobre o MDB ou em influência suficiente sobre as demais legendas da Caminhada. Aos 78 anos, depois de uma carreira eleitoral vitoriosa, sua decisão também permite uma leitura pragmática: diante do risco de encerrar a trajetória com uma derrota, preferiu retirar-se no crepúsculo de sua vida política.
O MDB preservou Pedro Abib. A federação liderada pelo PT preservou Expedito Netto, Luciana Oliveira e Aires Mota. O PSB preservou Samuel Costa e o próprio projeto. O PDT preservou Acir Gurgacz. Confúcio, mesmo sendo um dos principais articuladores da frente, não conseguiu fazer com que esses interesses convergissem numa chapa comum.
A responsabilidade pelo desfecho não pertence exclusivamente a uma legenda. A Federação Brasil da Esperança antecipou uma candidatura ao Governo antes da definição coletiva prevista para março. O MDB sustentou Pedro Abib e manteve seu projeto estadual. O PSB organizou outra alternativa. O PDT insistiu numa candidatura senatorial submetida a controvérsia jurídica. Confúcio aceitou a chapa do MDB e somente depois concluiu que as condições já não permitiam sua permanência.
O fracasso foi sistêmico.
A Caminhada construiu uma narrativa de unidade sem produzir um acordo político capaz de sustentá-la. Promoveu encontros, fotografias, discursos, mobilização e convergência em torno de temas relevantes. Não estabeleceu um procedimento aceito por todos para determinar quem seria candidato, quem deveria recuar e como seriam acomodados os partidos que abrissem mão de posições.
Isso não significa que todo o trabalho realizado tenha sido inútil. A articulação aproximou lideranças, interiorizou debates, reuniu movimentos sociais e colocou em circulação uma agenda distinta daquela predominante no campo conservador. Como espaço de mobilização política, deixou resultados concretos. Como instrumento destinado a produzir unidade eleitoral, não cumpriu a missão que justificava sua existência.
A retirada de Confúcio não provocou a desagregação. Ela apenas a tornou incontestável.
Quando o senador deixou a disputa, as principais candidaturas já haviam sido homologadas em chapas diferentes. O MDB, a Federação Brasil da Esperança com PSOL-Rede, o PSB e o PDT seguiam projetos próprios. Antes mesmo da nota de 31 de julho, a Caminhada já havia perdido a capacidade de apresentar-se como centro de decisão comum.
O pesadelo eleitoral não começou no comunicado de Confúcio. Começou quando os partidos passaram a formalizar candidaturas concorrentes enquanto a ideia de unidade continuava sendo preservada no discurso. A nota apenas encerrou a possibilidade de sustentar simultaneamente as duas narrativas.
Confúcio termina esse processo como articulador, personagem central e também atingido pelo modelo que ajudou a construir. Não pode ser tratado apenas como vítima, porque participou das decisões do MDB e aceitou sua homologação. Também não pode ser responsabilizado sozinho, porque não possuía autoridade para impor aos demais partidos uma chapa que eles nunca aceitaram formalmente.
O episódio deixa uma lição elementar para qualquer frente política. Afinidade programática não substitui acordo eleitoral. Reunir partidos é diferente de submeter seus interesses a uma decisão coletiva. Uma aliança somente se torna efetiva quando alguns de seus integrantes aceitam perder espaço para que o conjunto possa seguir uma estratégia comum.
A Caminhada Esperança conseguiu reunir todos enquanto ninguém precisava abrir mão de nada. Quando chegou o momento de definir quem representaria o projeto, cada legenda decidiu preservar a própria esperança. O resultado foi a transformação de uma frente concebida para enfrentar a fragmentação em mais um retrato da própria fragmentação que pretendia superar.
Diante desse horizonte cada vez mais estreito, torna-se ainda mais remota a possibilidade de a esquerda e seus aliados vencerem as disputas majoritárias em Rondônia. A fragmentação das chapas, a ausência de uma candidatura consensual e a vantagem histórica do campo conservador tornam esse caminho especialmente difícil. Isso, entretanto, não representa necessariamente o desaparecimento eleitoral dessas forças.
Mesmo fragilizado na corrida pelo Governo e pelo Senado, o campo progressista ainda poderá obter resultados relevantes no pleito proporcional, impulsionado por alguns de seus nomes mais proeminentes nas disputas pela Câmara dos Deputados e pela Assembleia Legislativa. Depois de fracassar na construção de um projeto majoritário comum, restará saber se conseguirá converter liderança, militância e identidade política em representação parlamentar.


Comentários
Seja o primeiro a comentar!