Publicada em 18/02/2013 - 12h17min   /  Autor:  Globo.com
Especial Nanda Costa: Atriz fala sobre sucesso da "Morena de Salve Jorge" e como lida com a fama e assédio

Atriz fala sobre sucesso, carreira, trajetória na TV e no cinema e seu envolvimento com a trama e a personagem da novela Salve Jorge

Nanda Costa se sente realizada com Morena (Foto: Salve Jorge/TV Globo)

Tudo na vida de Nanda Costa tem dois lados. Pelo sim, pelo não, como típica libriana que é, Fernanda Costa Campos Cotote escolhe sempre a sensatez como opção correta. Aos 26 anos, ela se sente realizada por interpretar a protagonista Morena de Salve Jorge, mas não se deslumbra. E no momento em que a trama chega ao capítulo 100, Nanda diz que pretende ir além, contando com a força da guerreira que acredita em São Jorge.

“Gosto de desafios. Quando falam ‘ah, ela não vai dar conta’ é que eu não sossego. Quero personagens que me deem licença para fazer o que for, sejam coisas loucas ou caretas”, dispara a atriz, em entrevista exclusiva durante intervalo nas gravações.

... ficaria triste se não houvesse esse assédio"

Se no punho direito, a tatuagem de um céu estrelado acima de um deserto demonstra seu lado mais sonhador e ousado, no pé esquerdo está estampado seu outro lado. O desenho de um elefante traduz a força que a atriz mantém viva para atuar e, inclusive, é a metáfora do vigor que ela empresta à gata do Alemão. “A Morena não leva desaforo para casa, ela é real, como muitas Morenas por aí”, sublinha a eclética atriz, apaixonada por música.

FOTOS: Confira um ensaio especial com Nanda Costa

Nanda está certa do sucesso que alcançou como protagonista da novela das 21h, mas prefere não presumir aonde vai chegar. Enquanto isso, ela segue pendendo entre o sonho e a certeza. Como as tatuagens contrastantes estampadas na pele e as nuances de sua maior realização na TV, interpretar Morena.

Nanda Costa (Foto: Salve Jorge/TV Globo)

Nanda Costa acredita que Morena nunca abaixará a cabeça para a máfia (Foto: Salve Jorge/TV Globo)

 

O que mudou mais em sua vida desde o primeiro capítulo? Como Nanda iniciou e como Nanda chega a esta etapa da novela?
- Mudou tudo. Minha rotina, o dia a dia, o ritmo das gravações, todos os dias, inclusive aos domingos, estou vivendo para a novela devido ao volume de trabalho e também porque sou muito comprometida. Desde o começo tem aquela coisa, a protagonista da novela das nove. Fiquei muito feliz com a confiança do Marcos (Schechtman) e da Gloria (Perez) e de toda a equipe. Mas muda tudo você sair na rua e todo mundo te reconhecer. Como estou saindo pouco, não é tanto. Casa, Projac, casa. Gravo durante o dia, chego à noite, vou assistir à novela, que eu gravo pois não chego a tempo. Estou vivendo esta rotina, então tudo que foge um pouco deste percurso parece diferente, como parar no posto para abastecer o carro. Os caras reconhecem, e que bom que todos torcem. Eu abaixo o vidro e as pessoas comentam: “Ollha, o Russo...” As pessoas participam, recebo cartas que elas começam a escrever para a Nanda, mas acabam escrevendo para a Morena. “Nanda, que bom que você foi escolhida pela Gloria, mas cuidado com a Lívia...”. Elas misturam até porque nunca fui conhecida do grande público, pois era do cinema. Tem gente que acha que eu sou do morro. Tem gente que ainda diz: “Olha que legal, colocaram a menina do morro para fazer a mocinha”. Tem muita gente que me chama de Morena. “Morena tira uma foto comigo, quer dizer, Nanda”.

 

- No capítulo 100, Morena descobre que está grávida. Você sonha em ser mãe? Quais são suas expectativas quanto a formar uma família?

- A gravidez vai mexer muito com o emocional dela. Mas falar sobre isso faz parte daquele cuidado que eu tomo. Às vezes você fala uma frase e aquilo se torna algo maior. “Nanda Costa sonha em ser mãe”, basta uma chamada dessa e a Nanda começa a aparecer mais que a Morena.

 

... uma coisa é você ver, ouvir ou assistir a um filme sabendo que aquilo existe e outra coisa é estar em contato com alguém que viveu aquilo"

- Quanto você empresta à Morena e/ou vice-versa?
- O foco. A determinação. A Morena é muito verdadeira, muito honesta, íntegra, e está sendo difícil para ela não poder se abrir para a mãe. Eu levo isso também. A Nanda não é uma só. Tem marra, tem doçura, tem peso, tristeza e como a Morena precisa de muita coisa, eu empresto o que for necessário. Só preciso saber como emprestar isso. Preciso dar um colorido para ela também, afinal não é porque ela foi traficada que não pode ter um momento para dar um sorriso, por mais doloroso que seja esse sorriso. Não é porque ela está sofrendo que não seja leve. E agora estou podendo trazer mais isso.

Nanda Costa (Foto: Salve Jorge/TV Globo)

Nanda Costa fala da integridade de Morena

 

- Acredita em São Jorge?
- Acredito. Em São Jorge e no amor pela fé. Quando fazemos por amor e fé, com vontade, não tem como dar errado. Porque embora não seja o resultado esperado, é sempre positivo para futuras experiências. Eu não sou devota a São Jorge, mas acredito na fé das pessoas por ele.

 

Não posso aparecer na frente da Morena"

 

- O assédio aumentou, obviamente. Como conviver com a popularidade?
- Não posso aparecer na frente da Morena. Aparecendo todo dia na TV como Morena, se eu aparecer em outros lugares como Nanda, as pessoas vão passar a interpretar também a Nanda. “Ela faz isso, mas na novela é tão diferente.” Por isso é legal manter um certo mistério e preservar dentro do possível porque eu quero que as pessoas acreditem que eu sou a pessoa que elas veem todo dia, e não com quem estou namorando ou não, se sonho em ter filhos. A Morena tem um filho, a realidade dela é aquela e daqui a pouco vai mudar, e eu quero que as pessoas vejam as minhas personagens antes da minha pessoa, minha personalidade. Não é que eu não tenho opinião, eu tenho opinião sobre muitas outras coisas, mas prefiro não ir contra, mostrar minhas preferências políticas, sociais. Se amanhã eu faço uma personagem de outro partido político e/ou defender outra coisa? Vou ter um esforço dobrado para convencer.

Nanda Costa (Foto: Salve Jorge/TV Globo)

Nanda Costa comenta o assédio nas ruas

 

- E quando não quiser ser assediada?
- Como tenho saído pouco, isso fica mais fácil. Eu sinto o assédio, é uma delícia, recebo e-mails, posts nas redes sociais, etc. Na padaria ou qualquer lugar que eu vá, como um restaurante, e se eu não quiser esse assédio eu vou pedir uma comida em casa. Mas eu ficaria triste se não tivesse esse assédio.

 

- O que tem ouvido nas ruas?
- Tem gente que se envolve e fica desesperada, principalmente de comunidade, querendo ajudar Morena a sair disso até porque ela representa o Alemão junto a uma galera da novela. E ter alguém passando por isso, as pessoas querem ajudar, participar. O movimento “Não deixa a Jéssica morrer, Morena tu é do morro, salva essa garota” foi forte.

 

- O que você ouve em casa sobre a Morena? Como a família se envolve/participa no seu trabalho?
- Minha mãe, às vezes, me liga chorando, vibra e torce junto. Quando a Morena bateu em Wanda, ela disse: “Tinha que ter batido mais”. Sou de uma cidade pequena, Paraty, e minha avó mantém uma loja muito tradicional por lá, e como ela é muito conhecida, não sou mais só a neta da Marinês, pois agora ela é que virou a avó da Nanda Costa. No meio das compras, as pessoas comentam sobre a novela. E se minha avó vai ao banco, as vizinhas dizem o que estão achando. Numa cidade grande não vão saber quem é a avó da Nanda (risos).

 

- Qual é o maior peso em interpretar a protagonista de uma novela? Quais são os pontos positivos e negativos em ser o “centro das atenções”?

- Todo mundo quer reconhecimento, trabalhar e viver de arte, nesse país onde é tão difícil. Tenho amigos talentosíssimos que trabalham com outras coisas para conseguir pagar as contas. Eu não tenho do que reclamar. Já fiz novelas em que estava em um item de 30, e hoje quando tem uma cena de folga é meu tempo de respiro, para dar um telefonema, quem sabe. Essa coisa de sair, já disse, eu sou caseira, então não estou sofrendo com essa dedicação. Mas tenho visto bem menos minha família em Paraty. Agora é maravilhoso você ter seu trabalho reconhecido e poder fazer uma personagem que pode estar sorrindo, chorando, batendo. A Morena tem várias nuances, o que dá para mostrar versatilidade e vulnerabilidade ao mesmo tempo.

Nanda Costa  (Foto: Salve Jorge/TV Globo)

Nanda conta que música ajuda a se desligar (Foto: Salve Jorge/TV Globo)

 

- Como desligar?
- Música. Às vezes estou sofrendo, então coloco uma música leve, para cima. Fora o emocional que a gente passa para o nosso corpo. Eu sei exatamente onde acaba a Morena e começa a Nanda, é físico, como uma sequência de choro, nosso corpo tem uma descarga energética. E tem as meninas que na realidade passam por isso, são traficadas, e não tem como não sofrer com isso.

 

- Segundo Gloria Perez, “Morena é tudo o que ela ouviu de mais trágico sobre o tráfico de pessoas”. Qual foi o processo que você adotou para estudar/construir a personagem? Teve contato com vítimas?
- Assisti a vários filmes, como “Tráfico humano” (Christian Duguay), e como é sério, sabe? “Li livros, “O ano em que trafiquei mulheres” (Antonio Salas). Teve preparação no workshop, a Gloria me mandou vários textos sem identificar as vítimas. Aí eu conheci a Ana Lúcia, uma traficada que deu seu depoimento na novela e até participou do workshop. Uma história triste e trágica que mexeu muito comigo, porque uma coisa é você ver, ouvir ou assistir a um filme sabendo que aquilo existe e outra coisa é estar em contato com alguém que viveu aquilo. Isso foi muito forte, e me dá um ódio disso tudo. Fiquei feliz e instigada em fazer esta personagem com a maior verdade que eu pudesse. Tudo que veio para o meu peito quis colocar em prática, com um nojo, uma raiva.

 

- Morena e Théo, apesar das dificuldades, cultivam um amor eterno. Você acredita em um amor como esse?
- Acredito muito no amor. O amor é a melhor coisa do mundo. Não dá para ser feliz numa relação quando não se tem amor pelo que faz, pela família, pelos amigos... É uma harmonia, um equilíbrio, conseguir pagar as contas, mas com prazer, amor é liberdade, é a pessoa estar junto para acrescentar.

 

- Quais são suas cenas favoritas nestes cem primeiros capítulos? O que foi mais fácil e mais difícil na hora de gravar?
- Gosto do beijo de Morena e Théo quando ela cai da escada no capítulo 2, do pedido de casamento, as cenas com o Junior (Luiz Felipe Mello), com a Dira (Paes), do leilão. Essa do leilão foi difícil porque foi a abertura da novela e gravamos antes de a novela ir ao ar. E dois meses depois a gente refez a mesma cena para colar, dar continuidade, porque a gente só tinha um pedaço que era o leilão e depois entrava no corredor e ia para o quarto, então estava com o cabelo um pouco diferente, mas precisava colar a emoção. A gente até faz isso com um intervalo de dois dias, mas eram dois meses e, no ar, parecia que era o mesmo dia.

 

- E para sua vida, o que está rascunhando?
- Continuar fazendo arte. Fazer teatro. Tenho dois longas para atuar e um para terminar após a novela. De repente estudar fora, cinema ou interpretação em Nova York ou Madri.

 

- Aonde pretende chegar?
- Pretendia chegar a muito menos do que venho chegando. Nunca soube onde era esse “lá” do famoso “você ainda vai chegar lá”. Queria era trabalhar, fazer teatro, animação de festa, continuar com a escolinha de teatro em cima do restaurante da minha mãe quando criança. Queria interpretar, mas nunca pensei em novela das 21h, ser mocinha então nem passava pela minha cabeça. Para mim, eu teria personagens na TV, mas não protagonista. Não tinha amigo ou família no meio, foi com muita garra e muito estudo. Daqui para frente, tudo é lucro.