Publicada em 17/01/2012 - 14:25
Se nem Veríssimo se eximiu de falar sobre, eu não poderia ficar de fora

Por: Vinicius Canova

A Rede Globo conseguiu o que queria: levou a ‘atração’ Big Brother Brasil ao extremo para conseguir consolidar de vez sua audiência

Lembro que ano passado ao comemorar os trinta anos do SBT o empresário Silvio Santos – que não precisa de apresentações curriculares – disse, em entrevista coletiva, que a Rede Globo de Televisão é imbatível, mas que ainda sim é possível fazer um trabalho bom, à sua moda, sem ter que se preocupar com a colocação na audiência. Falsa modéstia? Discurso de perdedor? Bom, isso fica a critério de quem ouviu o seu discurso, mas seria realmente maravilhoso se todo o perdedor tivesse a postura do Señor Abravanel.

Se o prognóstico do dono do Sistema Brasileiro de Televisão tiver um pingo de razão, qual motivo teria a principal emissora de televisão do País, cuja liderança sequer está ameaçada, a levar uma polêmica tão longe a ponto de colocar uma pessoa – que há poucos dias era anônima – à execração da opinião pública?

O participante acusado de ter estuprado uma de suas colegas de ‘confinamento’ no programa Big Brother Brasil deve carregar em seus ombros, nos próximos anos, a carga da irresponsabilidade da Rede Globo. E, caso não tenha sido proposital (por parte da produção, digo), o que se pode esperar, de uma forma comportamental, de pessoas que têm à sua disposição bebidas alcoólicas sem dosagem e a força da incitação da própria emissora pelo desencadeamento da libertinagem em rede nacional? Pois é...., acho que ninguém esperaria um resultado diferente.

Até Luís Fernando Veríssimo, que jamais pensei que escreveria algo sobre o assunto, resolveu desabafar – e, creio, muito mais como brasileiro comum do que como jornalista palpiteiro:

[...] Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis? Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores) , carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados. Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo santo dia. Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna. Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, ONGs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns). Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo. [...]

Infelizmente estamos todos muito mal servidos em relação aos programas oferecidos pela televisão aberta. O BBB sobrevive, todavia, do ‘falem mal, mas falem de mim’. Pelo que se sabe, os comentários que dão maior credibilidade ao programa e, principalmente, ao conhecimento de sua existência, vem de uma maioria que alardeia o asco que tem pelo “reality show”.

Fico com Veríssimo ao dizer que show da vida real mesmo dão todos aqueles que se empenham por um Brasil melhor. Por mais que pareça piegas e rebuscado, é fácil notar que as prioridades dos brasileiros estão cada vez mais dignas de serem impressas no muro das lamentações.
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