Por: Francisco Pantera
Pense, num cabra besta.
Metido a perfeitinho
Tem mania de valentão
Nunca anda acompanhado, só quer saber de andar sozinho.
É um cearense ignorante
Só vive esculhambando o prefeito Roberto Sobrinho.
Segundo, Maria Bruaca:
Os capetas nos viadutos estão fazendo ninho
Enquanto estiverem parados
Serão transformados em inferninhos
Entre outras fuleragem, lá estão morando:
Zé Mundiça, Funaré, Carapeta, Aranzé e o capeta Bigodinho.
Renato Sobrinho é pedreiro
E estava trabalhando lá pras bandas da Rua Sagarana
Ele não vai trabalhar
Por mais de uma semana
Veja só o que aconteceu:
Está com a bacia quebrada por causa de uma carreira que levou de um capeta sacana.
Foi na última sexta-feira 13
Quando se dirigia pra casa depois de tomar umas cana
Ele vinha descontraído, todo abestalhado.
Passando ao lado do viaduto da Avenida Jatuarana
Quando o perfeito ignorante teve um susto!
Arrepiou-se todinho que os olhos nem batia as pestanas.
Pulou de cima do viaduto em sua frente
Um bicho assombroso que desse mundo não parecia
O cabra soltou a bicicleta e correu
Na carreira, os pés na bunda batia.
Na disparada, Renato deu uma caganeira
Que a barriga doía e a merda no regete descia.
Ele entrou na Avenida Rio Madeira
E dobrou a Rio de Janeiro que nem bala pegava
Quando mais o Renato corria
O capiroto atrás dele esturava
Segundo Geraldo Sapateiro:
Nem a gota serena Renato parava.
No final da Rio de Janeiro
Era grande a escuridão,
Quando o pobre do Renato
Meteu o pé do ouvido no chão
Por causa de uma cratera
Que no prefeito ele já tinha dado uma esculhambação.
Caído, desestruturado, atordoado, frustrado, abilolado, abestuado...
Caia por terra um homem temido por sua fama de “valentão”
Quando ele ouviu uma voz:- Eu vou te cozinhar hoje no meu caldeirão!
Era o esturro do capeta que chega estremecia o chão
Renato Sobrinho não escutou conversa
E saio como um foguete no meio da escuridão.
Nessa hora, vinha passando Zé leiteiro.
Distribuindo leite montado no seu Jumento
Nesse momento o jegue também se assombrou
Deixando o pobre do leiteiro caído no relento
E Zé falando assim:- Meu Deus, o que Diabo foi isso?
Pasmo, arrepiado, gaguejando, sem discernimento.
Nessa confusão também correu um cachorro assombrado
Nesse meguecé... Ninguém sabe quem corria mais: Se era o cachorro, o jumento ou Renato valentão tentando escapar.
Pega aqui!?... Pega Acolá!?... Pega aqui!?... Pega Acolá!?... Pega aqui!?... Pega Acolá!?...
A poeira levantava e era forte a catinga de merda no ar
Segundo Dona Maria pipoqueira
Em frente a sua casa passou um monte de vulto que a veia não soube decifrar.
Já chegando à sua casa, pulou a cerca de vara.
Caio de cú trancado, esparramado no meio do terreiro.
Quando foi socorrido por Dona Julinha sua esposa
Só revirava os olhos o valentão metido a cangaceiro
E a pobre da sinhá, procurando saber de onde saia aquele mal cheiro
Nada mais era, de que uma garapa podre que saia do seu traseiro.
Vendo a situação do seu amado
Tomou logo uma diligência pra salvar o guerreiro
Agarrou-se logo de um terço
Que herdou de sua avó, benzido pelo Padim Padim Ciço do juazeiro
Rezou cento e cinquenta Ave Maria, e cento e cinquenta Pai Nosso.
Quando se ergueu com os cabelos arrepiados, Renato pensando no salseiro.
Renato Sobrinho hoje está se recuperando numa rede
Com costelas fraturadas, uma perna quebrada, a venta arranhada numa situação de dar dó.
Mas, continua metendo o pau no Prefeito
Pelos viabirutos do capeta, pela escuridão, pelo buraco que quase lhe deixa aleijado.
Está humilde, manço, simples, sereno e não conversa nesse assunto.
Mas, afirma com convicção: “Enquanto vida tiver em Porto Velho, nunca mais vai andar só”.
Dedico esse cordel ao meu amigo Amazon. Poeta popular, cantor, compositor, repentista e outras putarias mais... É um dos maiores sanfoneiros do país. Nasceu em Campina Grande, viveu parte da sua vida na Bela Jardim do Seridó – RN, hoje vive na sua terra natal, fabricando sanfona, tocando e animando a vida do lugar.
O Diabo da Besta-fera
Por circunstança da seca
Um dia eu me vi forçado
A pedir a seu Fonseca
Um emprego de sordado.
Seu Fonseca era sargento
Por leis e por documento
De São José da Bonita
Cachacêro depravado
Passava o dia socado
No boteco da Mãe Rita.
Quando eu pedi ao sacana
Um emprego de sordado
Ele dise. - Essa semana
Vou falá cum deputado
Ispricá que a cidade
Istá cum nicissidade
De adquiri um praça
Se ele dissé que sim
Tu vai trabalhá pra mim
Pra mode eu beber cachaça.
Eu tenho quase certeza
Que ele vai concordá
Sente ali naquela mesa
Pegue logo a trabalhá
Separa aí as escrita
Das conta lá de Mãe Rita
Pra mode eu ir lá mais tarde
Que quero vê dessa vez
Se o qu'eu ganhei esse mês
Dá pra pagá a metade.
De meóta de brejêra
Deu um fardo dessa artura
Parece até brincadeira
Mas não, é verdade pura.
De cerveja e de conhaque
Quase lhe dava um ataque
Quando avistô o paió
Ainda tinha ôtro feixe
De tira-gosto de peixe
Com caldo de mocotó.
Sei que fiquei trabalhano
Comeno mí com batata
Passei o resto do ano
Sem recebê uma prata.
Nesse tempo em São José
Home, menino e mulhé
Inclusive também eu
Não sabia que existia
Carro, quando um certo dia
Um bichiga apareceu.
Quem mulesta é que sabia
O que diabo era automove?
Começô a correria
Ao vere o fó vinte e nove
Teve véa que mijô-se
Teve ôtra que socô-se
Dentro dum paió de fava
Foi quando Chico Pantera
Gritô:. _ É a besta-fera
Que Padim Ciço falava!
Tinha um jumento amarrado
Dibaxo dum pé de figo
Mas quando viu o danado
Temeu um grande perigo
Quebrô a corda e correu
Entrô na casa de Abrêu
Danô os peito em Teresa
Quebrô uns troço que tinha
Foi isbarrá na cozinha
Tremeno imbaxo da mesa.
Maria, irmã de Tonico
Deu um pinote da cama
Prantô o pé num pinico
Correu vistino um pijama
Até Mané alejado
Que tinha um pé invergado
E a canela virada
Se esqueceu qu'era perneta
Dexô o pá de moleta
Saiu doido em disparada.
Gritaro. - Chame o sordado
Quisso é trabái pra puliça!
Eu saí mei assombrado
Mas pra num mostrá priguiça
Dei de garra da bereta
Sapequei na bicha preta
Uns dez tiro, mais ô meno
Nisso ela abriu-se dum lado
E um cabra saiu danado
De dentro dela correno.
Era o pobre do chofé
Que cum medo de morrê
Pulô fora, deu no pé
E o povo sem intendê
Dissero: - Aquele escapô
Porque a gente salvô
Chega Antonhe, vamo matá
Essa peste tá cum fome
Já tinha ingulido um home
lntêro sem mastigá.
E a bicha saiu danada
Sem ninguém pra lhe aprumá
Subiu logo uma calçada
Saiu derrubano um bá
Lá na frente ela afobô-se
Virô a banca de doce
Do véio Mané Adelso
lntrô pro dento da fêra
Saiu em toda carrêra
Virano tudo asavesso.
Aí pegô a chegá
Nego armado de cacete
Machado, chibanca, pá
Foice, enxada, picarete
Baxaro logo a pancada
Davam cada burduada
Que o chão ficava incamado
Nisso o capuz se arrancô
Apareceno o motô
Que ainda tava ligado.
Foi quando Mané Piqueno
Gritô pra Sebastião:
_ Tem um troço aqui bateno
Deve sê o coração
Mete o cacete, menino
Que o coração tá bulino!
Nisso o gás foi derramano
Porque o tanque furô-se
Aí gritaro: - Danô-se
A bicha tá se mijano!
Sei qu'esse carro ficô
Isbagaçado ao miúdo
Agora veja o sinhô
O resultado de tudo:
Sabe quem era o chofé
Que correu do labacé?
Era o dito deputado
Que vinha ali no momento
Prepará os documento
Pra mode eu sê contratado.
Depois, sabe o que se deu?
Fonseca foi dispensado
Mandaro um tal de Irineu
Pra mode sê delegado
E eu fiquei trabalhano
Trabalhei uns doze ano
Sem recebê um cruzado
E só pude sair de lá
Quando acabei de pagá
O carro do deputado
*Francisco Batista Pantera – É Professor, Jornalista, Poeta e Dirigente do PCdoB.