Publicada em 18/07/2011 - 10:53
Desviando o foco

Por: Vinicius Canova


Os políticos, em sua grande maioria, estão todos munidos de boas intenções, mas entre o discurso e a execução de seus projetos na prática, há uma grande lambança

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Dia desses, cheio de tédio, comecei a perambular pelos canais de televisão tentando – mesmo já sabendo o resultado – encontrar alguma coisa que preste para assistir. Nunca gostei de programas de auditório, mas parei num deles para ver o que o vereador (e cantor) Agnaldo Timóteo, de São Paulo, tinha a dizer sobre a liberação da grana preta para a construção do Itaquerão – o estádio do Corinthians que deverá abrir a Copa do Mundo em 2014.

Primeiro, Timóteo confessou ser corintiano roxo. Até aí, nada demais – só o mau gosto. Depois, perante o questionamento do ex-Polegar e usuário de drogas Rafael Ilha – conhecido nacionalmente pelo episódio em que engoliu uma pilha –, que queria saber por que esse dinheiro todo é destinado a um só clube, e não a sociedade inteira, Agnaldo reservou-se a responder objetivamente:

“ – Como poderei eu, na disputa das próximas eleições, ir à zona leste pedir votos, se eu votasse contra a região?”, disse sem medir palavras o cantor de 74 anos.

(Adendo¹: enquanto Deputado Federal pelo Estado do Rio de Janeiro, Timóteo se declarava botafoguense dos mais apaixonados. Quando se mudou para o Estado de São Paulo mudou de time visando a sua eleição como vereador, tornando-se corintiano e exigindo o título de representante da Zona Leste da Capital)

Sem perceber, Agnaldo deu a resposta que já está implícita na cabeça dos brasileiros há muito tempo, mas nunca ouvimos da boca de um político, ao menos publicamente. Eles, obviamente, têm boas intenções ao apresentar projetos de lei, mas a maioria deles já nasce fadada ao fracasso. O negócio, no entanto, é o que se ganha politicamente em cima da publicidade que se faz em relação a esses projetos de lei, que teoricamente, beneficiam o coletivo.

Façamos uma analise mais próxima, aqui mesmo de Porto Velho, capital do Estado de Rondônia. O Ministério Público enviou à Câmara Municipal, solicitação sugerindo a criação de uma lei que vetasse a venda de bebidas alcoólicas nos postos de gasolina da cidade. De forma oportuna, o vereador Elizeu da Silva, do Partido Progressista, criou o projeto e conseguiu sua aprovação no último dia 12 de julho, devendo passar ainda por uma segunda votação e, ainda, a sanção do prefeito Roberto Sobrinho (PT).

(Adendo²: antes de se tornar vereador, Elizeu da Silva, conhecido radialista, foi por muito tempo comerciante. Ele trabalhou à frente de diversos restaurantes e bares no Estado. Em todos eles, se comia e se bebia, tanto bebidas que não continham álcool, quanto as que continham. Olhando por esse prisma, Elizeu contribuiu tanto para as desgraças no trânsito, quanto qualquer posto de gasolina)

Ora, se a intenção da lei é causar um efeito considerável em relação à diminuição de acidentes no trânsito, pode ir tirando o cavalinho da chuva! O lugar em que se vende bebida alcoólica não é importante, importante mesmo é que ela é vendida e consumida por homicidas em potencial que saem dirigindo carros, implorando por atenção, na mais alta velocidade e embriagados. E bebida meu amigo, você acha em cada esquina, cada buraco dessa cidade.

A lei, sendo aprovada, prejudicará não só os donos dos postos de combustíveis como alega o vereador autor da proposta. A lei na verdade, deixará uma boa parte de funcionários sem empregos e, principalmente, sem o seu sustento. Alguns desses trabalhadores fazem sua escala inteira somente na conveniência do estabelecimento. Se a proibição acontecer, obviamente, seus serviços não serão mais necessários! Até porque não conheço ninguém que fique consumindo refrigerante e batatinhas nos postos. Com a redução da arrecadação do posto, o desemprego será questão de tempo.

Infelizmente, como os políticos só enxergam seus próprios umbigos, seu eleitorado, munido da mais pura demagogia e, sem analisar o que realmente é necessário para melhorar a vida dos que os elegeram, não há como nada melhorar. As pessoas vão continuar morrendo no trânsito se não houver forte fiscalização, se não houver leis mais rigorosas com aqueles que cometem atrocidades nas ruas e se o trabalho dos políticos continuarem tendo o foco desviado em virtude de suas ‘boas intenções’, que, como todos nós sabemos, o inferno está cheio.

AUTOR: VINICIUS CANOVA
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