Vamos falar de Lula?



Porto Velho, RO –
As pessoas mais próximas a mim se fingem de desentendidas, mas compreendem bem os motivos que me levaram, ao menos até agora, a jamais mencionar o nome do ex-presidente Lula em meus artigos de opinião de maneira pejorativa. Compreendem, mas, por óbvio, se fazem de bobas. Em primeiro lugar, ressalto o maciço movimento brasileiro ocorrido em prol do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff onde me recusei a apoiar as intenções maquiavélicas de criminosos antidemocráticos no formato de boneco de ventríloquo, vulgo massa de manobra.

Não fiz e nem faria parte da horda que, de maneira organizada, acabou enrijecendo o sustentáculo e ampliando o poderio de personalidades obtusas, igualmente ou até mesmo piores que quaisquer políticos ligados ao PT. Sigla esta, diga-se de passagem, que recebeu de forma injusta a pecha de detentora do monopólio da corrupção por grande parcela da sociedade brasileira trabalhando, sem saber, em nome do substrato daquilo que posso denominar como o necrochorume que permeia o lençol freático político.

E eu, caros amigos e leitores, sou monstruosamente defensor da democracia, ainda que suas sequelas se apresentem muitas vezes desastrosamente desfavoráveis a meus ideais. Tirando o crime de responsabilidade, prerrogativa exclusiva para destituição de um presidente da República, desculpas esfarrapadas como governabilidade e as idiotizadas justificativas familiares, religiosas e todas as outras coisas estapafúrdias suscitadas pelo nosso Congresso Nacional à época do impedimento me causaram asco e ainda causam espécie.

Em segundo lugar, ocupo uma pequena célula – um farelo cósmico – de um universo sem dimensões definidas, este conhecido simplesmente como Internet. Dentro desse universo, diluo meu trabalho com opiniões, reportagens e entrevistas numa das galáxias importantíssimas dentro desse intangível espaço, a imprensa. Inserido à galáxia, que é a imprensa, há o sistema solar, ou seja, o veículo de comunicação em que trabalho e me abre as portas. Mais afundo ao sistema solar, há a Terra, que seria a Visão Periférica, coluna de minha autoria. E ao fim de tudo isso, estou eu, um ser microscópico em termos universais vociferando coisas a esmo num vácuo infindável ocupado praticamente por manchetes negativas contra um único ser humano e sua legenda. Sou uma ínfima voz que não quer remar a favor da maré, o que seria muito mais fácil: jogar para a torcida, ter compartilhamentos e comentários favoráveis e ser reconhecido – de maneira imbecil – como um combatente.


Lula dificilmente conseguirá justificar a relação orgástica da República com empreiteiras / Foto.: Divulgação

Desde o ano passado, o Partido dos Trabalhadores perdeu muita força e abriu alas a inescrupulosos e oportunistas que, pior do que o partido de Lula e Dilma, sequer foram escolhidos nas urnas. Portanto, não voltei minhas baterias a Luiz Inácio.

Mas chegou o momento de falar sobre Lula. Embora eu enxergue clara perseguição do juiz federal Sérgio Moro, de Curitiba, sucursal da FENAJ, pois ele é quem diz quem é jornalista ou não, e de setores da Grande Mídia, principalmente por conta do exagero, insistência e parcialidade ao tratar do ex-mandatário, a manjada escusa “eu não sabia” está descartada e a relação de bacanal entre a República e empreiteiras deve ser investigada e punida com rigor.

A Odebrecht, que tinha um setor instituído apenas para lidar com propinas, é o retrato fiel da corrupção no Brasil. O crime mais do que organizado. Prova disso são as planilhas apontando valores e alcunhas de beneficiados a torto e a direito. Os diretores da construtora, mentirosos, pois já negaram antes o que estão contando agora como se fosse verdade, são bandidos. Bandidos acovardados, que farão qualquer coisa para diminuir suas penas, inclusive contar o que não sabem, inventar histórias e prejudicar inocentes.

E há.

Lula, por outro lado, chafurdou no lixo, se envolveu, conscientemente, com negócios escusos, ainda que por intermédio de terceiros. No mínimo, por comandar a nação, teria responsabilidade pela omissão ou mesmo negligência em lidar com a borra descafeinada da politicagem, um prepúcio institucional que deveria ter sido extirpado desde o começo. Mas jamais houve interesse. Que todos os investigados possam usufruir o direito ao contraditório e à ampla defesa.

Ao final, que os culpados sejam sentenciados e cumpram suas penas. Se for o caso de Lula, que a cadeia seja seu templo de reflexão, assim como foi e ainda é para José Dirceu, Antônio Palocci e João Vaccari Neto. Sem contar Genoíno, que já está em casa de pantufas. Assim como não acredito em impeachment sem crime de responsabilidade, não vejo como excludente de ilicitude qualquer reputação prévia, inclusive a de maior líder popular da História.

Autor / Fonte: Vinicius Canova

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