RD Especial – Os 36 anos de Rondônia com o historiador Aleks Palitot

Texto e entrevista: Vinicius Canova
Fotos: Gregory Rodriguez

Porto Velho, RO – O homem entre duas fortalezas é tão plural e multifacetado quanto seu objeto de estudos e ensinamentos: a história do Estado de Rondônia e suas nuances. A primeira delas o acompanha desde o nascimento, um casarão rústico de dois andares – patrimônio familiar; a outra, o Real Forte Príncipe da Beira, legado universal situado à margem direita do Guaporé em Costa Marques, 740 quilômetros de distância do entorno de sua propriedade privada em Porto Velho. Visitou aquilo que é considerada a maior edificação militar portuguesa 25 vezes desde 1998, quando se deparou, pela primeira ocasião, com a fascinante estrutura erigida em 1775, ainda no século XVIII.

Aleksander Allen Nina Palitot, o Aleks Palitot, tem 39 anos, é professor e, como costuma dizer, está político.

E como está!

Afinal, foi o vereador mais bem votado de Porto Velho em 2016 logo em sua primeira disputa eleitoral, elegendo-se pelo PTB com 4.039 votos – 256 a mais que a segunda colocada, a veterana Ellis Regina (PCdoB).

Além disso, é apresentador do programa “Trilhando a História” onde comanda verdadeiras expedições praticamente esviscerando a Amazônia de forma despojada e coloquial, muitas vezes refazendo os passos de Marechal Rondon. É autor do livro “Rondônia – Uma História”, lançado em 2016 com apoio do Colégio Objetivo.

Palitot recebeu a equipe do jornal eletrônico Rondônia Dinâmica para um papo descontraído voltado especialmente aos 36 anos de instalação do Estado em sua biblioteca residencial.

O ambiente é literário, histórico, cultural. Dominado de cabo a rabo pelas credenciais acadêmicas que o forjaram teoricamente; mas também é lúdico, com action figures da série Star Wars, um Indiana Jones – com quem já foi comparado – e obras ficcionais consagradas como O Senhor dos Anéis de J. R. R. Tolkien e títulos do novelista norte-americano George R. R. Martin.

A exposição do cocar Karitiana é demonstração recíproca de respeito, fascínio e admiração por esta e demais etnias indígenas enraizadas na Região Norte, verdadeiro símbolo empírico de relações estreitas com povos que antecederam a colonização, muito além do que a cátedra restrita às salas de aula poderia oferecer.   Há também o busto de Rondon, minuciosamente lapidado por Bruno Alves, acurado e detalhista artista local; aeromodelos da Segunda Guerra Mundial enfileirados acima da estante; livros tão antigos que estão protegidos, alocados cuidadosamente em sacos plásticos, e um pôster de um dos músicos mais influentes do século XX, o trompetista Miles Davis.

Entre itens que se misturam em pé de igualdade compondo o templo de introspecção, aprendizado, recreação e produção, uma relíquia: a primeira referência bibliográfica que leva o nome Rondonia (sem o circunflexo) no título, escrita pelo médico, antropólogo, arqueólogo, sociólogo e radialista Edgar Roquette-Pinto. A publicação é de 1917.  

“Quer defender sua liberdade? Defenda primeiro a sua identidade”, reforça Palitot a cada título retirado de seu acervo e apresentado à reportagem. Um mantra, um hino, uma frase que representa sua essência em todas as esferas sociais onde atua.

Ao Dinâmica, o docente contou detalhes sobre os bastidores da escolha do dia 4 de Janeiro para representar a instalação do Estado de Rondônia e por quê; a participação do primeiro governador Jorge Teixeira de Oliveira na política rondoniense; quais foram os outros personagens que fizeram parte do momento histórico, e o porquê do espanto da esposa do coronel quando soube que o marido fora designado para cá.

E ainda: professores de história estão na berlinda diante de tanta insensatez? Por que é tão difícil lecionar em tempos de polarização política? O que Rondônia pode esperar para os próximos 36 anos? As memórias de Teixeirão e Rondon são devidamente respeitadas? Por que não se dá mais tanta importância à história?

Confira as respostas para estas e outras perguntas a partir de agora, na seção RD Especial com o historiador Aleks Palitot

Rondônia Dinâmica – O que significa o 4 de Janeiro para Rondônia?

Aleks Palitot – Olha, o mais importante é entender os bastidores da data escolhida. Em dezembro do ano anterior à instalação de fato, 1981, estava tudo pronto. Só que Jorge Teixeira, conversando com alguns assessores, entre eles Eudes Lustosa, Ciro Pinheiro, Yeda Borzacov, enfim, personalidades, chegaram a um consenso de que a data de instalação, se mantida no dia 22 de dezembro, se “apagaria” de certa forma pela proximidade com o Natal e o próprio 1º de janeiro.

RD – Mas por que exatamente a data se “apagaria”?

AP – Muitos funcionários que vieram para Rondônia ainda na época do Território Federal quando Jorge Teixeira chegou aqui em 1979 eram de “fora”. Ele trouxe técnicos do Rio, São Paulo, enfim, de outros Estados, para consolidar a criação do Banco do Estado de Rondônia (BERON), a própria Companhia de Águas e Esgotos de Rondônia (CAERD), as Centrais Elétricas de Rondônia (CERON) e outras instituições. Então muitos deles passariam os festejos com seus familiares em seus Estados de origem, e aí a data poderia passar “apagada”, foi quando então elegeram o 4 de Janeiro a data derradeira da instalação do Estado.

RD – E o que é mais importante, a data de fundação ou a de instalação?

AP – Eu entendo que a de instalação é a mais importante porque houve a participação popular. No dia 4 de janeiro de 1982 há grande parte da população em volta do Palácio Presidente Vargas, Jorge Teixeira discursando... Aliás, um discurso memorável. Porque ele convoca a população para participar efetivamente da instalação do Estado, um discurso que, para muitos, foi um dos mais importantes de Jorge Teixeira de Oliveira.

RD – Algum trecho em especial para retransmitirmos?

AP – “Enganam-se os que pensam que a construção de uma Nação, de um Estado, de um Município, de uma pequena comunidade, é obra exclusiva do governo. Ela é obra coletiva, é do povo”.

RD – Na prática, o que significou este discurso?

AP – Foi um discurso ouvido por quase toda a população de Rondônia. E estava lá em volta do palácio Presidente Vargas, gente dependurada nas árvores, ali na Unir-Centro, antigo Porto Velho Hotel, lotando tudo. Estavam presentes os ministros Mário Andreazza, das Relações Interiores; Ibrahim Abi-Ackel, da Justiça. Era um momento épico onde houve realmente a participação da população, então o 4 de Janeiro de 82 é o momento em que realmente, de forma concreta, a sociedade visualiza a criação e a instalação do Estado de Rondônia. Porque o 22 de dezembro ocorreu na sala da Presidência com a assinatura de um documento.

RD – O que houve a partir daquele momento histórico após o discurso de Teixeirão?

AP – O Estado começou a se efetivar como a vigésima terceira unidade da federação, do Brasil, e terá sua efetiva primeira eleição de forma direta para governador em 88. E ali há dois personagens concorrendo: Jacob Atallah e Jerônimo Santana.

RD – Nós éramos mesmo o novo Eldorado?

AP – Muita gente veio com esta perspectiva, mas muita gente se frustrou. Quem permaneceu ficou, fincou raízes. Rondônia é um Estado de um mosaico cultural fenomenal, né? Costumo sempre dizer isso: se o mundo se encontra em São Paulo, o Brasil se encontra em Rondônia. Nós temos vários Estados em um único Estado.

RD – E essa pluralidade tão grande não cria para os rondonienses um problema de identidade de raiz?

AP – Olha... Também pode se considerar uma problemática quando você deseja uma homogeneidade na identidade cultural. Isso poderia até render uma pesquisa antropológica para se entender alguns problemas culturais de Rondônia como um todo. Justamente pelas suas diversidades e formas diferentes de se pensar. Quando você vai a municípios que margeiam rios importantes, como o Guaporé, Mamoré e o Madeira, há imagens que remetem a Porto Velho provinciana, a Guajará provinciana, a Costa Marques provinciana. Quando você pega o eixo BR-364 justamente no período onde houve os principais projetos de colonização e que trouxe muita gente de outros Estados, há uma forma de entender a ocupação urbana, social, comportamental muito diferente do caboclo amazônida, e visto assim pode ser considerado um problema, dependendo da visão.

RD – Mas também é um privilégio pertencer a um contexto de várias culturas ao mesmo tempo, não é?

AP – Acho que toda a cultura por mais homogênea que seja, assim como heterogênea, terá sempre os seus problemas peculiares. Mas acredito que nossa identidade em si é essa mistura que é, talvez, o grande charme de ser de Rondônia. Quem vem a Rondônia se encanta com as disparidades sociais e culturais. Temos quilombolas, caboclos, povos indígenas, sulistas, outras nacionalidades que também deixaram seus descendentes como os barbadianos, libaneses, judeus, gregos – principalmente à época da construção da Estrada de Ferro. No Sul nós temos os pomeranos, colônias alemãs e italianas, enfim, uma mistura interessante. Rondônia é, no aspecto identidade, um dos Estados mais ricos do Brasil. Claro que falta o que as pessoas sempre desejam: uma identidade específica do povo de Rondônia. E acho que isso ainda será construído ao longo do tempo.

RD – Agora que o senhor respira a atmosfera política na Câmara de Vereadores é possível dizer qual a diferença entre o que era praticado há 36 anos e atualmente?

AP – A política hoje não passa por um bom momento. O mais irônico é que, quando Jorge Teixeira fez o grande discurso do 4 de Janeiro, nós vivíamos ainda o regime militar. Foi difícil observar em outras autoridades militares o mesmo alto índice de popularidade que Jorge Teixeira teve. E é bem verdade que o coronel foi aplaudido demais à ocasião da instalação do Estado, mas fora vaiado no último discurso, um fato histórico que muitos historiadores narram. Quando Teixeirão deixou o Poder fora exonerado pelo então presidente José Sarney, a pedido de Jerônimo Santana, seu rival político.

RD – A vaia era, então, uma espécie de arapuca política?

AP – Sim, pois Jerônimo, Raquel Cândido e Olavo Pires que armaram uma plateia para vaiar Jorge Teixeira em seu discurso de despedida. Inclusive o seu sucessor, Ângelo Angelim, tentou intervir por detrás dele com a plateia quando as pessoas começar a vaiar.

RD – Que tipo de intervenção?

AP – Ele gesticulava e dizia: “Não, pelo amor de Deus, não façam isso. O ‘cara’ está indo embora, construiu um Estado, está saindo daqui doente, deixou de cuidar da própria saúde”.

RD – A intenção dos adversários, então, não era só atacar o prestígio, mas principalmente evitar que Teixeirão retornasse ao Poder?

AP – Sim. O desejo dele era voltar a Rondônia e se candidatar a governador para concorrer com Jerônimo Santana, seu grande rival. Então o Jorge Teixeira foi um governador que percorreu todo este Estado, constituiu municípios, fez várias regiões progredirem – e em pouquíssimo tempo! Agora, é bem verdade, que nós não podemos deixar, como a história muitas vezes deixou, um personagem importante de fora, que fora “apagado”: Humberto da Silva Guedes, que antecedeu Teixeira e foi primordial para o sucesso do coronel.

RD – Humberto Guedes não teve os devidos méritos, então?

AP – Jorge Teixeira tem todos os seus méritos, mas deu sequência a um trabalho que começou a ser feito com Humberto da Silva Guedes. Teixeira deu uma oxigenação maior e obteve êxito.

RD – Regressando ao paralelo do aspecto político...

AP – A população está cansada. O cenário político hoje é desanimador. As pessoas não querem perder tempo ouvindo político. O próprio momento dá resposta a isso. Espero que um dia as pessoas possam entender o que dizia Platão: “Você pode até não gostar de política, mas será governado por quem gosta”. E nós vivemos, na década de 80, um momento em que as pessoas viram promessas sendo cumpridas, se concretizando. Por isso Jorge Teixeira foi tão aplaudido, porque prometeu em 79, quando tomou posse, e em 82 superou todas as metas. A população quer aplaudir o que se concretiza, uma questão de rejeição aos que gastam nas palavras renunciando às ações efetivas.

RD – E como Rondônia se portou diante do movimento de redemocratização?

AP – Rondônia, sendo um novo Estado, teria direito a oito deputados federais, e a três senadores. Nesse momento histórico é muito importante entender que os militares precisavam de mais votos para eleger Paulo Maluf. Então colocar Jorge Teixeira, extremamente popular, era primordial para transferir o voto a quem quer que fosse, algo que era possível à época. Então no jogo político Jerônimo Santana era deputado federal, o único do Território. Santana era a favor da criação do Estado, claro, pois queria ser governador. Os militares queriam o mesmo. Então tudo se conjugou com as necessidades do Brasil.

RD – Todos os interesses convergiram?  

AP – Todos! Então quando ocorreram as eleições para um cenário de Constituinte, há três senadores colaborando com o regime militar: Odacir Soares, Reinaldo Galvão Modesto e Claudionor Couto Roriz. Seriam, teoricamente, três votos para o Maluf; os deputados federais, a mesma coisa. Os estaduais, idem. A Assembleia Legislativa de Rondônia (ALE/RO) em 83 contava com mais de 80% de colaboradores do regime militar.

RD – Maluf era unanimidade?

AP – Exceto por Jerônimo, que votou em Tancredo Neves. Mas havia uma necessidade patrocinada pelo regime militar em eleger Paulo Maluf presidente da República.

RD – Quanto a colonização, é possível dizer que Rondônia passou por um período sangrento durante o expansionismo?

AP – Rondônia é uma região, ainda, de populações indígenas. Qualquer ação humana em reservas gera impacto. O que as pessoas precisam entender é que a gente nunca encontrará a formula perfeita para minimizar isso. Para muitos prevalecia o conceito de que índio bom é índio morto. Populações como as dos Uru-Eu-Wau-Wau na época foram dizimadas na região entre Ariquemes, Costa Marques, São Francisco e São Miguel. Em Buritis também, enfim, toda aquela região do Vale do Jamari. Os Uru-Eu-Wau-Wau sofriam não apenas com a ação do desmatamento, com a modificação de seus biomas, mas principalmente com a doença do homem branco. Então jamais haverá política pública para minimizar os impactos causados no período de ocupação de Rondônia se nós não eliminarmos os preconceitos.

RD – Em alguns casos essas doenças eram proliferadas de maneira proposital para matar os índios?

AP – O próprio Claude Lévi-Strauss, autor da conceituada obra Tristes Trópicos, relatou que alguns fazendeiros sobrevoaram reservar indígenas jogando roupas de funcionários contaminados pela malária para fazer o mesmo com etnias indígenas. Muitos índios morreram de catapora, rubéola, sarampo... Então assim, Apoena Meireles, grande indigenista, tentou minimizar o impacto, mas era uma luta inglória. O avanço da BR-364 na sua época, o avanço 429 para Costa Marques, e a 425 para Guajará-Mirim foram impactantes em muitas reservas. Mas precisamos ser realistas: Rondônia não surgiria se não houvesse essas ocupações.

RD – Economicamente, Rondônia parece deter o dom de sobreviver às mais duras crises. Como isso foi possível em tantos momentos diferentes na história?

AP – Rondônia sempre viveu de ciclos econômicos. E talvez a miscigenação, o tal mosaico sobre o qual falamos anteriormente, tenha corroborado com isso. O primeiro ciclo econômico é o do ouro, no Vale do Guaporé. Depois das “Drogas dos Sertão”, urucum, cacau, canelas, resinas... Na sequência, o primeiro e o segundo ciclo da borracha, que hoje os historiadores unificaram. Há uma decadência com a crise de 29 que afeta um pouco nossa produção de borracha, mas ela continua acontecendo. Com a crise de 29, a Estrada de Ferro abandonada, o administrador Aluísio Pinheiro Ferreira contribuiu com o surgimento das primeiras colônias agrícolas a fim de manter o funcionamento desta.

RD – E após esse período?

AP – Aí há a Segunda Guerra, mais borracha, um hiato econômico. Na década de 60 há algumas colonizadoras no Sul, como Itaporanga na região de Ji-Paraná, Pimenta Bueno. Em 70 há novo ciclo econômico; em 80, início de 90 o garimpo do ouro no Rio Madeira, no Mamoré. E aí vem o período da soja em meados de 2002, 2003, 2004. A soja ganhou espaço no Sul de Rondônia, região da 319. Começamos a viver da chamada hidrovia do Madeira. Fechamos com as hidrelétricas, que não gosto de considerar como ciclo econômico. Mas não posso ignorar sua existência histórica e sua interferência ambiental e social. Rondônia tem a sina de viver ciclos históricos. O que nós ainda não conseguimos é extrair desses ciclos históricos a construção de um Estado ainda mais consolidado à sua forma administrativa.

RD – E o que isso significa exatamente para todos nós?

AP – Necessitamos de estratégias de acordo com os nossos tempos. Jerônimo Santana, no passado, chegou a cogitar a transferência da capital de Rondônia de Porto Velho para Ji-Paraná, por ser uma região mais fácil de ordenar políticas públicas para o Estado. Eu entendo a visão dele à época, apesar de ser bairrista agora [risos] e defender a Capital onde nasci, Porto Velho. Mas Ji-Paraná é, estrategicamente, o coração do Estado de Rondônia e facilitaria a administração à ocasião com a necessidade de se construir estradas. Ji-Paraná é uma cidade-modelo no aspecto administrativo na parte urbana, fluvial e tudo o mais. Mas talvez seja não apenas por ter aproveitado bons administradores, mas também por não ter sido a Capital, suportando os ônus. A Capital tem demandas reprimidas, sempre teremos problemas periféricos.

RD – Voltando ao 4 de Janeiro, professor. Muitos não compreendem o significado da data, da importância dos nomes envolvidos. Onde foi que nos perdemos quando nos deixamos levar pelo desinteresse histórico de nossa própria identidade?

AP – Se eu tivesse a solução para isso, resolveria o problema de muitos professores. Hoje é um grande desafio em salas de aula, principalmente aos professores de histórica quando trabalham a disciplina de História de Rondônia, que é obrigatória – lei criada na época de Jorge Teixeira preocupado em construir uma identidade. Vivemos um momento digital, em que as ferramentas dispostas são fantásticas, benéficas, mas distanciam as pessoas. A juventude, teoricamente, tem se distanciado muito de sua identidade, do que compreende que está em seu entorno. Faltam relacionamentos mais intensos com aquilo que deu origem às suas famílias e histórias. 4 de Janeiro é uma data qualquer no calendário da vida desses jovens. Mas para personagens como Yeda Borzacov, Eudes Lustosa, professor Abnael Machado de Lima, Viriato Moura, Aparício Carvalho, jornalistas importante que foram testemunhas oculares da criação do Estado de Rondônia como o próprio Beni Andrade que segurou o microfone no momento em que Jorge Teixeira fazia um grande discurso, enfim. As pessoas que viveram essa época têm muito a dizer.

RD – Esbarramos, de novo, em um problema de identidade...

AP – Exato. Uma coisa que falo muito no meu livro: quer defender sua liberdade? Primeiro defenda sua identidade. Não existe nada mais importante e imensurável do que todos os valores contidos em sua identidade, o que é seu de origem.

RD – Alguma personalidade esquecida neste contexto ou fato curioso deixado para trás?

AP – Chiquilito Erse, que muita gente acha que nasceu em Porto Velho, é importante para o contexto. Ele não nasceu em Porto Velho. Nasceu no Amazonas. Quando Jorge Teixeira era prefeito em Manaus, fazendo uma brilhante administração, muitas pessoas acreditavam que ele seria nomeado governador do Amazonas. O mais interessante é que quando Jorge Teixeira ficou sabendo que seria nomeado governador de Rondônia foi avisar sua esposa.  Nilza Menezes e Fabíola Holanda  entrevistaram, em Jorge Teixeira – Uma Contribuição Documental – todos esses importantes personagens que conviveram com ele. Então além do Chiquilito, há João Dantas, Dimas Ribeiro da Fonseca, Paulo Cordeiro Saldanha, Francisco Matias, Hélio Fonseca, César Augusto, João Batista Lopes, Érico Bona, Francisco Gonçalves Neto, Maria Carmem Ribeiro, e naturalmente Euro Tourinho.

RD – E quanto à reação da esposa de Teixeirão...

AP – Quando ele avisa a ela que teria de ir a Porto Velho, a esposa solta um palavrão: “P... m....., o que você fez de errado para te mandarem para Rondônia?”. Porque para muitos naquela época ir para Rondônia era um castigo, uma punição. Ninguém queria se mudar para uma região inóspita. Jorge Teixeira disse: “Eu vou cumprir a missão”, chegando aqui em 79. Primeiro ele dá uma olhada, volta a Manaus, convida alguns empresários a investir no Estado, inclusive Milton Pellucio, dono do Colégio Objetivo veio nessa leva.

RD – E o Chiquilito?

AP – Veio para ser o secretário de Administração do Jorge Teixeira, e aí ganha projeção, notoriedade, conotação política pela primeira vez. Então Chiquilito, que é um personagem muito querido e praticamente tornou-se lenda urbana no Município de Porto Velho, lembrado como o melhor prefeito da Capital, participou efetivamente do contexto de criação do Estado de Rondônia. Ele é um desses personagens que passam desapercebidos muitas vezes. O ensaio político dele começa na administração de Jorge Teixeira, seu grande professor. E sempre sonhou em ser o governador do Estado, tanto que se candidatou duas vezes, mas não teve êxito.

RD – Com essa polarização política que tomou conta do Brasil ficou mais difícil lecionar história no País?

AP – [Risos]. Sim, sim. É complicado. Confesso a você que é. Conversava com colegas num grupo de 17 historiadores a respeito. Passamos a reviver situação que acreditávamos jamais nos depararmos de novo na história da humanidade, em especial o medo de ensinar.

RD – Exemplo?

AP – Organizamos uma vez um evento denominado Café com História, grupo de palestras literárias com livros de história para temas específicos do ENEM. Em dois eventos, de um total de quinze, houve problema. Um deles foi sobre Anos de Chumbo – O Regime Militar. E como deu problema! Alguns se incomodaram insinuando que a palestra serviria para desfigurar o regime militar. A Ditadura Militar, hoje nós sabemos, não foi totalmente militar. Ela teve apoio da elite, foi uma ditadura como a de Vargas. Uma mistura de ditadura civil com a dos próprios militares. Os críticos achavam a denominação “Anos de Chumbo” muito ofensiva, mas ela é histórica. Eu tenho boas relações com militares. Eu admiro dois deles: Jorge Teixeira e Marechal Rondon. Não tenho problemas com eles, mas estava lá, assim como outros professores, para narrar a história. Os fatos da história...

RD – A conclusão é de quem, afinal?

AP – Do aluno. Quem faz a leitura de mundo é ele. Não existe, de forma alguma, professor que consiga manipular cabeça de aluno. Não existe isso. Hoje você tem mídia social! O pai e a mãe não controlam o próprio filho, então quem é o professor para controlar aluno em sala de aula? Eles são libertos digitais. Essa fantasia, esse medo que se criou de manipulação do ensino, é uma discussão vazia.

RD – Os pais ficaram meio paranoicos?

AP – Exatamente, acho que foram levados a crer num processo que não existe nem nunca existiu. No mesmo Café com História, no mês seguinte, trabalhamos Revolução Russa, segunda ocasião onde houve problemas. [risos] Mas é tema de ENEM, são cem anos da revolução. E lá vinham os revoltosos: “Mas não, vocês não podem lecionar isso, é comunismo”. E eu explicando: “Gente, é um processo histórico. A gente vai narrar a história, o que aconteceu. Vamos contar uma história do passado. Ninguém aqui vai fazer uma revolução russa no Brasil...”. Então as pessoas passaram a ficar temerosas de forma exagerada, e entre nós historiadores gerou-se uma grande preocupação: o fato de perdermos a autonomia e a liberdade de ensinar pelo prazer. A educação liberta.

RD – A história nacional relegou Jorge Teixeira e Marechal Rondon ao esquecimento como meras nomenclaturas em logradouros?

AP – Vou tirar por Porto Velho. Aqui ninguém fala Praça Marechal Rondon, fala Praça do Baú. É uma das primeiras praças de Porto Velho. E está abandonada. Já solicitei tantas vezes à prefeitura a limpeza daquele espaço, mais respeito por aquele espaço. É uma praça que dá nome a um cara que fundou nosso Estado, teoricamente, antes de Jorge Teixeira. Rondon, pela história recente após seus 150 anos de nascimento, foi considerado Herói do Brasil. É o patrono das Comunicações, que trouxe o telégrafo pra cá à época. Rondon é um grande cientista, o cara que nos apresenta à comunicação, preocupado em filmar e documentar tudo. Traz os melhores equipamentos para filmar a Amazônia, mostrar o “elo perdido”. Lota os cinematógrafos do Rio de Janeiro para mostrar a Amazônia, um Brasil desconhecido: índios, animais selvagens, rios e árvores. Rondon, nacionalmente e em termos institucionais, é lembrado. Agora, a mídia e a opinião pública o ignoram. E eu não sei por quê. Talvez por ser descendente de índio Bororo, mas enfim, é um cara ainda muito esquecido e ignorado.

RD – É um herói?

AP – Não acredito no mito do herói. Não gosto dessa concepção. Herói é aquilo que a gente gosta nas revistas em quadrinho, são ficcionais. Porque quando criamos a concepção de herói a gente exige do personagem histórico a perfeição, e Rondon não era perfeito. Ele tinha seus defeitos como todos nós, assim como Jorge Teixeira. E assim como falei da Praça Marechal Rondon, a Praça Jorge Teixeira está praticamente esquecida. Pegaram um monumento de arte moderna de um artista plástico renomado de Porto Velho e posicionaram-no na frente da estátua de Teixeirão, que está lá na Jorge Teixeira. Somente é lembrado quando se ganha um título de futebol e eu, como fã da brincadeira dos gaúchos, acho válida a intenção de colocar a camisa do Grêmio na estátua, não vejo como um atentado ao patrimônio histórico. É colocar uma camisa num personagem que era gaúcho e provavelmente era gremista. Mas estátua está lá, só é lembrada nesses eventos pitorescos. Ela merece uma revitalização, as pessoas merecem saber quem foi também esse grande personagem. Aliás, há também o Memorial Jorge Teixeira, que as pessoas poucas vezes visitam ali na frente do Teatro Banzeiros, na antiga casa do coronel. As pessoas estão procurando ícones, pessoas novas. E às vezes o segredo está no passado. A forma de você avaliar aquilo que deseja para o futuro é olhar os valores deixados pelos personagens do passado, completamente esquecidos no presente.

RD – Como será o Estado de Rondônia quando concluirmos os próximos 36 anos?

AP – Vejo este Estado sendo protagonista de um momento épico no Brasil. Estamos estrategicamente bem localizados. Acho que o nome Rondônia, em homenagem a Rondon, é um negócio mítico, cabalístico. Quando Rondon pegou o mapa do Brasil ainda jovem ele olhou para ele e, na parte onde é Rondônia, estava escrito “Terras desconhecidas”. Esse cara veio para cá numa missão que ninguém topava. Hoje por conta do que ele fez nós estamos muito bem. Nossa localização estratégica cria a percepção de que Rondônia tem muito a crescer. Precisamos, no entanto, ter mais cuidado. Não podemos passar pelos mesmos incidentes das décadas de 70 e 80. O crescimento tem de ser planejado e coordenado, apesar de ser difícil. Rondônia ainda nos trará muitas alegrias.

Autor / Fonte: Vinicius Canova / Rondoniadinamica

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