Editorial – Políticos e a arte de nos decepcionar

Editorial – Políticos e a arte de nos decepcionar

Porto Velho, RO – Cidinha Campos tem 75 anos e é jornalista. Não foi, porém, sua atividade na Imprensa que a tornou famosa no Brasil contemporâneo. Também não importa que tenha feito parte do elenco fixo de “A Família Trapo”, onde atuou junto com Jô Soares e Ronald Golias na TV Record nos anos 60, corroborando com a liderança da emissora em índices de audiência à época.

Cidinha ganhou mesmo os rincões brasileiros – e outras partes do mundo – há um tempo após viralizar nas redes sociais por conta de um vídeo onde discursa de maneira inflamadíssima na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ).

A deputada estadual inicia de forma enfática:

“Eu quero falar dos que mamam!” – causando risos no Plenário.

E continua:

“Eu gosto de falar de quem mama. Não das crianças que têm direito, mas dos marmanjos, safados, sem-vergonhas, cafajestes que infestam a política nacional. E infestam esta Casa”, pontuou, apontando para o chão do Legislativo fluminense. As gargalhadas cessam e, a partir daí, um silêncio respeitoso toma o ambiente fazendo com que as palavras da pedetista ecoem tanto ali quanto por toda a Internet, que por sinal não tem fronteiras.

O famoso discurso que ganhou o mundo

Frases de efeito, retórica arrojada, disseminação cibernética: a fórmula perfeita para transformar, de uma hora para outra, políticos desconhecidos em verdadeiros “mitos”, celebrados com entusiasmo por ala facilmente seduzida do eleitorado que se contenta com muito pouco ou quase nada, desde que a embalagem agrade.

As imagens que rodaram o Planeta ajudaram a edificar a personagem Cidinha, parlamentar porreta, totalmente anticorrupção. Imagem que ganhou ainda mais força quando passou a criticar o candidato derrotado à Prefeitura do Rio nas eleições de 2016, Marcelo Freixo (PSOL), que por sinal é seu colega de parlamento.

A vovó dos dossiês, sempre pronta para denunciar todo mundo com suas pastas recheadas de documentos, acusava Freixo de envolvimento com o crime e chegou a satirizar seus eleitores, denominando-os como traficantes, vagabundos, burgueses metidos a pobre e iludidos solitários.

O tiro saiu pela culatra já que a neta de Cidinha declarou apoio ao socialista criticando veementemente a atitude da avó:

“Melhor ser burguês metido a pobre do que burguês que odeia pobre”, escreveu.

Pois é. Nada como um dia após o outro, pois o mundo dá voltas.

A ALERJ decidiu na tarde da última sexta-feira (17) revogar a prisão preventiva dos deputados Jorge Picciani, presidente da Casa; Paulo Melo, ex-presidente, e do líder do governo Edson Albertassi, todos do PMDB.

As prisões ocorreram no âmbito da Operação Cadeia Velha, que investiga suposta corrupção operada a partir do Legislativo estadual, e atinge duramente a cúpula peemedebista.

“Há indicação suficientemente comprovada de que os três deputados receberam por anos a fio propina para favorecer esse grupo de empresas", afirmou Abel Gomes, desembargador relator.

O magistrado destacou ainda que, como acusa o Ministério Público Federal (MPF), Picciani participa de esquemas de desvio de recursos públicos desde o fim da década de 90.

Picciani, Melo e Albertassi são acusados de manterem “relações espúrias e promíscuas” com empresas de transporte público e com o Grupo Odebrecht, segundo o relator do processo. Os deputados teriam recebido propinas de mais de R$ 100 milhões.

Como se trata de um trio criminoso do colarinho branco, é óbvio que Cidinha Campos figurou entre os 19 deputados que votaram a favor da manutenção da prisão, e Freixo, o “defensor de bandidos”, entre os 39 que votaram contra, certo? Errado! Ela votou contra a manutenção da prisão; ele, a favor.

E aí, quem é que defende bandido mesmo?

Jorge Picciani, Paulo Melo e Edson Albertassi: a turma do Cabral pode mamar 

A explicação pode estar debaixo de nossos narizes. Cidinha é contra os que mamam, mas depende de quem mama. Se for da trupe do ex-governador Anthony Garotinho, com certeza não pode, afinal os Garotinho são seus inimigos políticos, antagonistas combatidos com unhas e dentes há anos, doa a quem doer. Mas Picciani, Melo e Albertassi lideram também, ainda de acordo com o MPF, organização criminosa do ex-governador presidiário Sérgio Cabral, coincidentemente peemedebista assim como o resto da turba. A parlamentar é conhecida como a “Pitbull de Cabral”, fiel defensora e amicíssima do ex-governador. Esses aí podem mamar direto na fonte, na teta da vaca gorda, sem problema algum!


Cabral e sua pitbull

Agora chovem comentários decepcionados na página de Cidinha Campos no Facebook. Alguns extremamente ofensivos. Muita gente se sentiu enganada com a rigidez moral falseada pela política filiada ao PDT desde 1982. A atitude demonstra – mais uma vez – que não há limites para os políticos quando o assunto é a arte de nos decepcionar.

Que papelão, Cidoca... Que papelão! 

Autor / Fonte: Rondoniadinamica

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